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Van Gogh

Pergunta: Vincent, um de seus 12 “Girassóis” foi vendido em 1990 por U$ 82,5 milhões; esse valor atualizado fica em torno de uns U$ 700 milhões. Você mal tinha dinheiro para comprar tinta; como encara esse disparate?


Van Gogh: 82 ou 700, é um valor infinito cuja pequenez não consigo mensurar. Eu sabia que meus quadros um dia iam valer mais do que a tinha [empregada] neles. O preço da arte nenhuma moeda pode aquilatar, ainda que ela silencie a mesma arte que intenta comprar.


Pergunta: Ok. O fato de sua mãe ter-lhe dado o mesmo nome do seu irmão que nasceu natimorto afetou sua psique a ponto de você se considerar um mero usurpador do lugar que era dele?


Van Gogh: A sensação de não pertencer a mim mesmo é o que mais chocou minha existência. Meu irmão Vincent ressurgia dentro de mim como em visões apocalípticas, e eu lhe chorava o perdão. Ver sua lápide diariamente equivaleu a eu ter minha alma contorcida, era dor, sem ilusão, apenas dor, e a loucura que se apoderava de mim.


Pergunta: Seu irmão Théo não o libertou desse trauma dalguma forma?


Van Gogh: Da mesma forma que o sol é a única lanterna do mundo, Théo me valeu mais do que esse sol. Nunca haverá um irmão como Théo. Sem ele eu seria um trapo momentoso, um farrapo num presídio, uma inconsistência, nada mais.


Pergunta: O sol. O sol da França [Arles] redefiniu sua pintura de forma dramática. Essa luz é apenas física ou também alegórica, parabólica?


Van Gogh: O sol do mediterrâneo molda todos os tons. Em princípio a luz abundante me enternecia, a ponto de eu querer naufragar na escuridão…


Pergunta: Por isso que você pintava à noite com velas acesas na aba do chapéu?


Van Gogh: Por isso e pelo surto febril que me intrigava e me extorquia cada fôlego de vida que eu tinha certeza que a cada momento poderia ser o último. É dessa agonia que saiam os melhores trabalhos. Eu não enxergava, apenas sentia.


Pergunta: Dostoieviski a quem você tanto amava e que eu entrevistei logo abaixo (e não sei se o senhor teve tempo de ler) me disse que jamais produziu arte, você produziu arte?


Van Gogh: O conceito de arte reside apenas no belo, segundo o regime moribundo do ocidente que só ama o que deleita os olhos. O que eu produzi foi antes um grito do que uma poesia pictória. Há tanto sangue, esperma e aflição nas minhas telas que eu não teria coragem de categoricamente afirmar que [aquilo] seja arte. Pode ser uma emboscada, um milagre, uma afeição. Acho que produzi arte, sim.


Pergunta: Sua relação tempestuosa com Gauguin (ele interrompe)


Van Gogh: Gostaria de não mencionar esse aspecto menos sanitário da minha vida, porque isso mexe com fraquezas que superam toda interpretação possível. Ser abandonado por um amigo fratura até as partes moles do nosso ser. E todas as conseqüências provindas da desilusão fraternal que tive não apenas com ele mas como com os demais artistas da minha relação são o fruto do destempero e da loucura. O pedaço do lóbulo do pavilhão da minha orelha que extirpei foi um desabafo e um desagravo a todos os tipos de abandono. Considere: não foi um ato de loucura ou desespero, foi um ato tresloucado e terno, de amor, sem nenhuma dor ou remorso.


Pergunta: Puxa! Nem sei o que perguntar a você depois disso. Que pergunta gostaria de responder?


Van Gogh: A pergunta de que a validade infrutífera das coisas não merecem a mínima exaustão do nosso corpo, nem sequer uma prece.


Pergunta: Você fala em abandono com certa nostalgia pueril, mas quanto ao inverso do abandono? O carteiro Roulin, o Dr. Gachet, seu irmão nunca o abandonaram.


Van Gogh: Às vezes aquilo que nos faz padecer é o que verdadeiramente nos constrói. A bondade deve ser sempre a regra e o ordinário nas relações, fora isso o que sobra é a violência.


Pergunta: Seus quadros estão nos principais museus do mundo, somadas todas as suas 800 e tantas telas valem bilhões de dólares. Esse reconhecimento póstumo o reabilita como artista?


Van Gogh: Sucesso comercial nem sempre dignifica o artista, antes mesmo, até o desola a ponto de obstruir sua criatividade, como foi o caso de Rembrandt, Velásquez e tantos outros. A vantagem da fama póstuma é não ter se embriagado dela, eu provavelmente teria a vida arruinada com [ela].


Pergunta: Mas, por Athena!, sua vida foi uma coleção de tragédias! Entende que poderia ser pior?


Van Gogh: Por qual régua você mede a minha felicidade? Pela doença, pelo abandono, pela solidão?


Pergunta: Você morreu como um cão após agonizar por três dias com uma bala no peito! Há glória nesta tragédia?


Van Gogh: Dores, dores, dores. Palavras, palavras, palavras. [citando Hamlet] Shakespeare poderia responder muito melhor do que eu. Uma genuína agonia não pode ser medida pelas caretas que produz, mas pela feridas que expõem uma flor, uma liberdade qualquer.


Pergunta: Vincent, foi bem legal falar contigo.


Van Gogh: Foi divertido para mim também, me espreguiçar um pouco da eternidade abala a rotina, e suportar a eternidade sem pincel é como saborear um néctar sem a língua. Adeus.

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