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Um Homem de Valor – Fagalima Tuatagaloa


... Ninguém quis entender os motivos que levaram o magnata Fagalima Tuatagaloa a dispersar toda sua imensa fortuna em doações espaciais. Espaciais.


Tuatagaloa guiava pela cidade distribuindo toda forma de riqueza: uma obra de arte para aquele mendigo, uns lingotes de ouro para aquele banqueiro, um chumaço de apólices para um lavrador; um carteiro não pôde acreditar quando grudou na sua pesada mochila maços simetricamente arranjados contendo centenas de notas europeias, e fustigou seu benfeitor:


- Terei de declarar ao Fisco essa soma, seu inútil!


A comitiva do excêntrico milionário observava com atenção e cautela os gestos daqueles que ignoravam ou mesmo negavam com veemência os prêmios distribuídos sem causa por aquele homem de semblante escandinavo, acessório facial que tornava sua aparência distintamente comum e forasteira.


Quanto mais a bagagem de riquezas era subtraída, mais parecia dela florescer insumos de alto valor: joias, relíquias sacras, mantimentos da Antiguidade e os naturais objetos da cobiça humana. Seria ele um mágico oriundo das profundezas do passado?


A carreata estancou o passo quando passou defronte ao parlamento e todos os parlamentares, ultrajantemente vestidos de meio-fraque e sobrecasaca, irromperam das escadarias com grande alvoroço, manobras incompatíveis com a vestimenta inglesa, apropriadas para seus caráteres. Surrando com seus cromos alemão os degraus amorfos (como eles) daquele prédio medonho, chegaram até a carruagem e fitaram Fagalima Tuatagaloa, que os ouviu com prazer:


- O que pensa fazer? Sua ação está dinamitando os alicerces da nossa aldeia. A distribuição de dinheiro não trará igualdade ao nosso povo. As regras da Economia são o mais perfeito mecanismo já criado pelo homem; veja o caso dos diamantes: é vendida a falsa ideia de que eles são raros e para quê, senão para manipular seus preços no mercado internacional? Os estoques de gemas chegam às centenas de toneladas e jamais serão postas à venda, senão o preço despenca. Sua atitude, além de danosa, é extravagante. Quem vai confiar na boa-fé de um homem que se desliga de sua própria fortuna? Olhe bem, se quiser postergar seu nome, envergue sua pontaria para atos que calam mais fundo na memória dos homens; sim, promova uma guerra, confabule com as entranhas da Terra e dela peça um terremoto, uma catástrofe epidêmica, qualquer atitude que seja arrasadora, mas desde que seja algo que faça correr muito sangue e lamentações; reúna seus esforços e seu poder para desestabilizar as forças regionais, polua as mentes influentes com uma injúria bem feita, uma calúnia que honre a memória de algum inimigo, e aí o respeito e a fama estarão garantidas, desvirginará os vindouros séculos. É uma esparrela inútil se meter a ajudar as pessoas. Há exemplos...


Fagalima raciocinou com vagar, e tão pesado pensamento fulminou seu espírito de tal sorte, que este imediatamente se desvinculou do seu corpo que necessitava de espaço para acondicionar o alvitre.


- Farei do seu alvitre a mola mestra das minhas futuras ações. Guardas! Prendam esses homens elegantemente vestidos. Tenham cuidado apenas para não amarrotar seus lindos coletes.





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