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Sonho

Sonho/ sempre Sonho / que eu estou apaixonado/ Sonho que o amor/ agora está mais do meu lado/ Sonho e nesse Sonho eu me vejo abandonado:/ pois eu sempre Sonho acordado” – Martinha e César Augusto, gravado por Gilliard.


Sonhar, viver... que é o sonho, já se devem ter perguntado vários experts na milenar arte da achologia; eu suponho, observe a astúcia, eu suponho não acho, suponho que sonhar equivale a surrupiar aquilo que não alcança a mão invisível do nosso ser.


Mormente não há freios para aquilo que sonhamos; nem rédea nem nada; ao sonhar nos invade o proibido, o desejável, o abominável o incoerente, o impossível e imponderável, porque o sonho além de ser um fenômeno democrático, não conhece conceitos básicos fundamentados em necessidade ancestrais e culturais; nada: no território sem leis dos sonhos, matamos amigos, somos príncipes despudorados, comete-se incestos sem a burocracia das sanções sociais, sorri-se de flagelos, acalenta-se o fogo, somos até mesmo indestrutíveis, como prova os tradicionais sonhos em que se é socorrido pelas pálpebras, quando acordamos em plena queda do também tradicional penhasco, verdadeiramente ilesos do resultado que quedas causam neste mundo que os ingratos chamam de físico.


Se negar a existência não está mais na moda como em outros tempos, não deve ser pecado redivivê-la; vai que, plagiando o feioso Sartre, (“E se este mundo for o inferno de outro mundo?) a realidade mesmo for àquela que sonhamos nos vagos e obscuros momentos em que o cérebro, hiper-ativo, se conecta com outra dimensão? O não menos feio Dostoieviski interrogava-se: “Se não há Deus, tudo é permitido”; se não há sonhos, o simples simplesmente não é permitido.


O receio é que, sendo a fantasia dos sonhos a plena realidade, fica-se muito prejudicada a noção das possibilidades; se lá, naquele universo – que para alguns é até colorido! – o impossível é palpável, que vantagem há em sofrer neste outro mundo todas as privações e mordaças que nos impelem a calar quando há uma vontade diabólica de xingar, simular um sorriso quando o arquiteto do sorriso (o cérebro) entende e quer que seja fixado no rosto uma carranca; vá de retro, mundo ruim.


Por isso é bom sonhar; porque no sonho não há regras nem amarras, suponho que o sonho seja o único momento da existência humana em que os homens são realmente livres; abre-se uma janela no mistério e mergulha-se na eternidade, na Grécia Antiga, proseia-se com Adão, encontra-se um amor que nunca irá se encontrar no “mundo real”; é até verossímil que se flerte com o futuro, o furor das máquinas aniquilando não apenas as pessoas, mas seus sonhos; quem sabe até não se converse com Deus enquanto se sonha, só que Ele, sobrecarregado de sabedoria, apaga da memória (ou do mundo?) aquilo que foi falado com o objetivo de nos deixar ainda mais ávidos por buscá-Lo. Sendo impossível fazê-lo por meio de cartas, e-mails e/ou telepatia (tecnologia que usa o mesmo princípio do sonho) sonhamos para nos conectar com o Divino, more ele onde morar; enquanto Ele sonha são produzidas todas as cenas passadas neste mundo aqui. É o que eu acho.



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