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Saudade do Presidente do Futuro



- Presidente, tudo bem com o Sandro?


- Sim, por quê?


- A tentativa de assalto do seu filho...


- Que tentativa? – reagiu perplexo.


Foi assim que o presidente Lula ficou sabendo da tentativa de assalto sofrida pelo seu filho em 18 de junho de 2005, que resultou na morte de um oficial do exército. O diálogo acima é parte integrante do novo livro de Frei Betto, “Calendário do Poder”. É intrigante que o homem que tem sob si a Secretaria de Segurança Institucional, a Polícia Federal, o Centro de Informação do Exército (CIE) e todo o Estado-Maior à disposição, tenha de saber do grave fato ocorrido com um membro de sua família (que é protegida 24h por dia pela instituição Presidência), por um amigo que viu a notícia do ocorrido na TV, como um cidadão comum é informado de um evento qualquer.


É sintomático. A solidão e as atribulações (e atribuições) do cargo supremo da hierarquia republicana fatiam o homem em postas. É sintático. Na esteira dos magníficos escândalos que abalaram o país, tendo à órbita o presidente como um satélite cego, chega-nos, anos mais tarde, essa indefectível revelação da ignorância do sujeito que deveria ser o compatriota mais bem informado da nação.


Assim, por não saber antes do comum dos homens que a vida do seu filho corria risco, absolvo o presidente até dos crimes que ele porventura tenha cometido. Até do crime de omissão ele está perdoado. Concedo, como um juiz ou um júri imprevidente que não observa as provas incriminadoras contra o réu, o perdão não apenas judicial, mas também o civil, o moral e até o religioso, o que assegurará ao presidente uma vaguinha no céu; e não é um céu qualquer: é um céu mais lascivo do que o prometido aos mártires muçulmanos, com uma centena de jovens virgens (prometo que todas são mais belas que a miss universo japonesa) e a desnecessidade de fazer política.


Como uma afta que se suporta por não poder extirpar a boca, vamos levando esse presidente e os próximos que virão. O defeito deste parece ser grave, mas não é; o defeito do próximo será, talvez, aquele que atinge mor parte dos filhos desta geração, o desnaturalismo.


- Sr. Presidente, sua mãe acabou de falecer.


- Não me aborreça com ninharias. A reunião com o empreiteiro está agendada para hoje?




Escrito por Alex Menezes, às 21h36.


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