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Pobres Diabos

(04/10/2006 )


Hoje estou sem tema para escrever. Não faço a menor ideia do que colocar no papel, ou melhor, no monitor. Podia escrever sobre um conto engraçadíssimo que li hoje, cujo título diz tudo: A Conversão do Diabo.


Claro está que, se eu fizer qualquer arrazoado sobre o conto, vai parecer provocação política, e hoje não estou aqui para provocar senhor, nem senhora nem ninguém. Mas a história do diabinho é interessante.


É natural e até usual que um diabo bonzinho, cansado daquela monotonia infernal, decida se converter ao cristianismo ou a outra religião que exija menos esforço e sangue dos seus fiéis. Um diabo convertido. Um diabo que zele pela virtude, tenha apreço pela verdade, e se alimente exclusivamente dos bons costumes e de hábitos salutares, como não enganar seus semelhantes (diabos) ou prometer coisas impossíveis de ser cumpridas.


Diabos há que se envergonham ou se arrependem de ter incutido no homem a milenar arte da velhacaria; creia neste diálogo entre dois diabos melancólicos:


– Se as coisas continuarem assim, os terráqueos não precisarão mais da nossa ajuda.


– Como assim? Nossa tecnologia de ensino ainda não está terminada.


– É isso o que me preocupa.


– Por quê?


– Se estamos a ensinar malvadezas aos homens, e sabemos que o homem é bom aluno para aprender o mal, a pouco mais de 60 séculos é provável que…


– 60 séculos!


– …É provável que em breve eles nos dispensem, e aí o que havemos de fazer? Aprender a virtude?


– Antes a virtude que o ócio.


– Essa troca de papéis não me cheira bem. Apesar dos vícios, do engodo, da proclamação regular de guerras, deixamos os homens viverem em relativa paz, mas será que, trocando de lugar, eles nos darão sossego e boa morada?


– Criaremos um estatuto e, quando este dia chegar, estaremos segurados.


– Não sei, não. Desconfio da má-fé humana.


– Podemos criar um partido para preservar nossos direitos.


– Não funciona. Logo aparecerá um líder messiânico, quero dizer, diabônico, para nos liderar e depois nos enganar; ele se associará aos homens e aí estará decretada nossa extinção.


– Não podemos ser extintos. Olhando com boa vontade, temos lá nossas qualidades…


– Qualidades de diabo! Silêncio! Vem chegando um homem…


Ambos eles silenciaram. Num passado remoto, era o homem que tremia com a chegada de um diabo, mesmo que fosse um desses, do baixo escalão. Como não apenas as máquinas evoluem, é natural que o homem, com toda a sagacidade e assessoria que lhes deram os séculos, pudesse, enfim, conseguir um lugar de destaque na criação.

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