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O Tempo Grego que Passou

Vejam essa Grécia. Ardendo em ódio e desesperos, ela que foi umas das mais notáveis faces de cultura e do pensamento que o mundo jamais produziu. O que explica que o solo onde se ergueu legendários homens de saber, mitos que influenciam a modernidade, uma literatura que cala fundo na percepção psicológica e na tentativa de compreender os humanos enquanto seres capazes de gestos ternos e ferozes, eis esta Grécia, acumulada de tantos e calamitosos tormentos.


Fica bastante óbvio que o assassinato de um estudante não é a causa para os distúrbios que consomem a terra de Aristófanes e Nikos Kazantzakis; sendo hoje um dos países mais atrasados da Europa, o grego olha para as ruínas imponentes do seu passado, vê a potente arquitetura da Acrópole, imagina a ática de sua ascendência, burila aqueles mares, e não se conforma de como e porque o futuro não lhe sorri como o esplendoroso tempo que passou.

O tempo que passou, quanto mais magnífico que tenha sido, jamais retorna, e os habitantes da Hélade pressentem a decadência que se iniciou desde que a família real macedônia, que então englobava o Império Helênico, foi arrastada a correntes por toda Roma, incapaz de misericórdia e entorpecida diante do triunfo, vício intolerável que acomete os vencedores que sabem vencer, mas não sabem o que fazer com a vitória.


A gradiente atmosfera que ora transita por sobre a Grécia, pede um minuto de silêncio sonoro e eloqüente.


Gregos, sub-gregos, anti-gregos, neo-gregos, todos lamentam o momento crítico, a devastação e o incêndio que tudo corrói, menos a história, menos a qualidade ímpar de uma civilização que ensinou o humano a se ver como humano, despindo-o de sua majestade postiça.


Se os grandes heróis mitológicos da mítica Grécia pudessem ressurgir das cinzas como o Phoenix, ou do rochedo como Prometeu, iriam lastimar o que se fez da poderosa e engenhosa nação inspiradora do mundo, criadora de costumes, fiadora da democracia que hoje domina mor parte do mundo, mas impotentes diante da loucura e da incompetência comum àqueles que não sabem administrar um legado precioso, o fato findo é que o tempo que passou não retorna jamais e isso até os grandes heróis compreendem bem: como compreendeu este poeta:


Vou, uma vez mais

Correr atrás

De todo o meu tempo perdido

Quem sabe, está guardado

Num relógio escondido por quem

Nem avalia o tempo que tem...

Ou, alguém o achou

Examinou

Julgou um tempo sem sentido

Quem sabe, foi usado

E está arrependido o ladrão

Que andou vivendo com o meu quinhão

Ou dançam numa torre

As nossas sobrevidas

Vidas, vidas

A se encantar

A se combinar

Em vidas futuras

E vão tomando porres

Porres, porres

Morrem de rir

Mas morrem de rir

Naquelas alturas

Pois sabem que não volta jamais

Um tempo que passou...




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