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O Papa Judaico

O que é a história senão um desfile de efeitos idos e vividos? O hodierno homem, obcecado e cercado por tecnologias não difere daquele antepassado em que a única tecnologia disponível era o cérebro; estão aí as tragédias gregas para provar. A Medéia que, como a borboleta, se rebela contra o mundo opressor que a quer domar e na seqüência comete crimes terríveis; Antigona luta pela honra e mostra que há ainda nobreza onde a torpeza ainda impera. Em suma as contradições e as necessidades de oprimir ainda são vigentes.


O Estado Judeu de Israel cometeu recentemente um desses desatinos facilmente descritos e satirizados por Sófocles, Aristófanes ou qualquer bom dramaturgo que entendesse o treslouco que é a mente humana e sua mania de embotar seus semelhantes, esquecendo que, quando se tenta embotar a outros, embota-se a si mesmo.


Pio XII era o papa da vez quando da eclosão da Segunda Guerra; historiadores e gente de maior gabarito afirmam que ele foi condescendente com os atos nazistas ainda nos primórdios da guerra, em troca de proteção e demais benefícios espúrios. A história deu a este papa o cognome “Papa de Hitler” pela sua atuação suspeita moral, política e eticamente condenável. Pois bem. A igreja católica, artífice na arte de deixar o tempo consumar seus desígnios, resolveu beatificar ou canonizar o controverso sumo pontífice e qual não é a surpresa quando...


... quando autoridades eclesiásticas e seculares de Israel protestam contra a santificação de Pio XII. Cabe saudade dos trágicos autores gregos. Receio que eles, por mais que abusassem dos seus gênios não podiam prever um tão insensato óbice da nação israelita, que não reconhece quaisquer procedimentos teológicos da Cúria Romana, nem seus santos, nem seus dogmas, nem sua santíssima trindade, nem seu inferno de fogo, nem seu messias, nem seus nada.


O único liame entre o catolicismo e o judaísmo é o seu Deus (D´us judaico, Jeová católico, YHVH para ambos) fora isto, é como Palmeiras e Corinthians; ambos praticam o mesmo esporte, mas não se suportam sentimentalmente. Claro que a comparação é absurda, porém tecnicamente aceitável, porque ilustrativa.


O que explica a reação de Israel à elevação do papa a uma categoria que ele, enquanto Estado religioso, não reconhece equivale a Xuxa ser ministra da Cultura; não muda nada. Parece claro que também os sábios judeus sabem disto, da inutilidade do ato, mas o fazem para sacudir a política externa, para fazer ferver a panela moral da religião que anda perdendo audiência e féis para as bolsas de valores, que encontra seu inferno e seu paraíso nas oscilações diárias. A Bolsa de Valores é um gênero religioso mais dinâmico e emocionante do que estes vetustos regimes de dois mil, seis mil anos de existência que prometem céus e infernos, mas até agora não cumprem nada. No dogma das ações tudo quadra com as necessidades do nosso tempo, é um credo moderno; nela são dadas as delícias do lucro e os amargos do prejuízo, espécie de inferno interino, sem ser preciso esperar uma geração, um milênio, esse tempo todo que tanto desgasta a gente.





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