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A Morte Indolor de Obama

“Peto non dolet”


“Peto, não dói”. Quando Arria, a bela e viril mulher do senador romano Cecina Peto, mostrou ao marido que não se deve temer nem a dor nem a morte, ambas as instâncias terríveis, mas necessárias ao complemento do mistério que é existir, ela deu uma lição de como se deve encarar o risco diário de sucumbir à morte. Este célebre episódio aconteceu lá pelo século I da Era Comum, quando o bom imperador Claudio, um administrador de gênio, ordenou que o senador Peto se matasse, por participar de uma conjuração para matar o soberano. Arria tomou o punhal da mão do marido, citou a frase à epígrafe, se imolou com ele, e este não hesitou em seguir o exemplo de bravura da esposa e seguiu-a ao encontro de Plutão.


Leio jornais e articulistas impacientes com a especulação a cerca da possibilidade de assassínio do ora eleito presidente norte-americano. Alguns, até amigos meus por quem nutro simpatia, chegam ao paroxismo de dizer que a hipótese é na verdade uma “vontade inconsciente” daqueles que não queriam um negro ocupando o cargo de maior relevância política do mundo. A ingenuidade mesclada a uma autoridade "inteligente" destes formadores de opinião é sôfrega.


O presidente eleito pode sim ser alvo de um atentado a qualquer momento. Pode ser até agora, enquanto eu escrevo e você lê; tempos distintos, porém próximos e exatos.


Casas de apostas britânicas retiraram cerca 100 propostas de apostas sobre se ele seria ou não assassinado antes de tomar posse, e um fenômeno assim evidencia 1; a euforia causa circunstâncias de ordem passional (para o bem e para o mal) nas pessoas; 2 o transe hipnótico de sua extraordinária vitória evidencia uma sociedade doente, ávida por um salvador, um messias de qualquer matiz.


Sempre que o novo se insurge derrubando barreiras antes intransponíveis, fica aquela sensação de que a ousadia da façanha pode criar uma energia ainda mais avassaladora, que detone as paredes que travam a evolução e o entendimento entre os povos, tarefa para lá de hercúlea que nem o senhor Obama e menos ainda essa massa eufórica terão poderes para superar.


Agora mesmo, quando escrevi “Obama”, o corretor automático do computador não reconheceu a palavra, rejeitou-a de pronto, sublinhando como a me avisar: “essa palavra é um erro, ou não existe” e o eleito presidente pode tudo isso aí: ser incensado por uma Europa ressentida e invejosa da supremacia norte-americana, citado em prosa e verso na África negra, vergonha da civilização (pelo que ainda é e pelo que poderia ser); mas um simples corretor de texto num computador de um cidadão do 3º Mundo ainda não o aceita como o demiurgo que a mídia e a eterna necessidade humana em forjar um “eleito” que expie sua imensa culpa, que, como os ódios raciais, podem ser amainados, mas extirpados, jamais.



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