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O Coveiro

Um coveiro, impaciente e exaurido pela repetição incessante de sepultamentos, se rebelou contra a profissão. Era íntimo das manhas dos acompanhantes dos enterros. Os gemidos das viúvas, por exemplo, o cumulavam de sensibilidade. Tanto a ponto de saber discernir entre a viuvez comemorada e a lamentada: uma continha o choro com o semblante, a outra o liberava com a empáfia.


O coveiro, então imerso em obscuras reflexões, quis crer que seu ofício era o de maior relevância entre todas as muitas atividades necessárias à sobrevivência; passou a refletir sobre os efeitos de uma greve geral da classe, calculou minuciosamente os desdobramentos, as comoções, os odores (principalmente os odores), e concluiu que as lágrimas a serem derramadas pela paralisação seriam as mais sinceras já caídas desde a invenção dos enterros.


Decidiu pela greve. Postou nas redes sociais a convocação. Coveiros também usam redes sociais, e só se soube deste milagre digital porque o improvável também acomete o mundo dos invisíveis.


A União Nacional dos Coveiros (UNC) atendeu ao clamor dos sepulteiros, e em menos de 24 horas nenhum ex-vivo podia gozar da fortuna do sepultamento. A calamidade estendida, de norte a sul, inebriava não apenas a atmosfera, mas os mais refinados paladares das cidades; todos os milhares de mortos diários empilhados ao léu causava muita distensão.


A procissão de corpos tumultuando a serenidade dos cemitérios, os improvisos de parentes e amigos (poucos) em fornecer eles mesmos a mão para a enxada e para a pá só causou mais transtorno, uma vez que os vivos não toleram por excessivo tempo o convívio com seus mortos, e não era raro ver sepultamentos feitos com o desleixo típico que liga a pressa ao desprezo. Em pouco tempo, as montanhas de corpos se acumulavam com uma fina camada de terra ou de escombros a lhes cobrir a dignidade. A ação inibia apenas a visão, de modo que o olfato escapava facilmente à artimanha.


O coveiro ganhou a celebridade dos Big Brothers: eram entrevistas, convites para festas (festas não cessam por calamidade) e aparições em atrações de auditório. Um personal stilist o orientou a caprichar nas vestes, e lá estava o homem nos programas usando Dolce Gabana, e o mistério da origem dos recursos para aquisição das peças serviu para mostrar que a notoriedade só não cria atalhos para quem já morreu. E o homem lá, imerso, enterrado nos auspícios da fama.


Indignados com a celebridade do mentor do movimento, os demais coveiros sentiram-se humilhados, manipulados e usados pelo colega de pá, e decidiram romper a greve. Os quinze dias de greve deixaram os milhões de mortos insepultos mais mortos do que de costume. Monasticamente dedicados, os coveiros remanescentes enterraram os cadáveres, muitos putrefatos ou já reduzidos a ossos, a única parte do corpo que não fede e não emagrece nem com a morte.


Restaurados à normalidade, os enterros ganharam ares de solenidade redobrada: eram mais salgadas as lágrimas escorregadas das faces. O reflexivo coveiro-agitador, amparado pela repentina popularidade, candidatou-se e venceu as eleições para um cargo eletivo qualquer; mudou de ofício, mas prosseguiu sepultando as pessoas, só que agora em vida.

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