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O Bazar do Traficante


Eu fui ao bazar do super traficante Ramirez Abadia, no Jockey Clube de São Paulo. Enfrentei o tumulto das pessoas e a inclemência do sol, que também tumultuava a rua de modo insolente. Confesso que não me senti muito à vontade com o rebuliço, as agitações psicológicas dos compradores. Eu fui ao bazar do traficante Abadia.


Com a carteira recheada de notas de pouco valor, respirei fundo e parti para a guerra.


A primeira coisa que comprei foi uma senhora, os óculos com aro dourado; olhei para ela e, sem ela saber, arrematei-a por 36 centavos. Depois comprei um rapazote, um capacete e um distintivo de time de futebol preto e branco debaixo do braço; dei 18 centavos nele, que não regateou. Uma menina linda, linda, os cabelos de comercial de shampoo, foi minha por meros 4 centavos. Uma senhora gorda, de echarpe moldando uma forca, gritava desesperada, “A TV de plasma é minha, ninguém tasca!”; não comprei-a... nem ela nem a TV. A TV, em termos de mercado, valia seus 2 mil reais; em termos de passado, não valia nada, só merecia o benefício que faria à instituição.


Uma mulher de estampa adequada aos bairros mais nobres da cidade foi vistoriada por mim enquanto experimentava uma bolsa Prada. Reclamou da falta de um espelho que refletisse não aquela ocasião, incondizente com o seu prestígio, mas um que já a levasse para os salões da high society, sem que ele denunciasse jamais que a origem da peça fosse naquele duvidoso brechó. E a honra, o mérito, a dignidade? Ia oferecer 39 centavos por ela. Mas ela perdeu a dignidade quando olhou a sola de um sapato Chloé. Que espécie de gente se preocupa com a sola quando o que importa é a imagem da marca?


As cuecas do traficante serviram-me bem: deverá fazer muito sucesso entre as mulheres do nosso tempo. Custavam 1 real cada. Os perfumes, pela metade do frasco, arrematei para pulverizar o mau odor do próprio bazar, que fedia a psicopatia, a convulsão social, uma doença nova que só os médicos do futuro poderão identificar, sem diagnosticar.


Saí do alvoroço como um senhor de escravos: comprei homens e mulheres que, na ingenuidade de pensarem que iam lá para consumir, foram consumidos.


Saí do bazar saboreando delícias. No lado de fora, os deserdados que não puderam entrar rateavam seus infortúnios; uma velhinha dissera que veio lá do Itaim Paulista, o equivalente à África se São Paulo fosse o mundo, e que era um desrespeito ela não ter entrado; queria uma meia, uma escova de dentes, qualquer coisa que fosse, tinha dinheiro vivo, sofrido, ganho com o trabalho que Deus sabe como foi duro.


O traficante ficou célebre e estendeu aos seus pertences a celebridade oficiosa que alcançou matando 300 e tantas pessoas, arruinando as vidas de outras tantas. Na genealogia da moral humana, o que conta não é o meio ou a lisura do sucesso obtido; o que vale mesmo é a essência da parvoíce que ignora tudo, desde o excesso de liberdades à decadência do gênero – humano.

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