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Meu Joelho e S. Francisco de Assis Gay

Avariei o menisco praticando meu arquissagrado futebol de segunda. Futebol de segunda dá uma conotação dúbia ao meu talento; lá fica o leitor a calcular se é dia da semana ou qualidade. Vá lá. O que sei é que é o momento em que voo voos inimagináveis enquanto pratico a vida civil. No campo, fantasiado de atleta, altero-me para algo que, em realidade, não sou; um ás que imagina ser ás. O custo da ousadia foi uma lesão no joelho.


No médico:


Se não tivesse lesionado o joelho, não teria conhecido o doutor Jairo. Atende aqui na rua Peixoto Gomide no Jardim Paulista, num consultório que parece a casa de algum personagem de Charles Dickens.


Onde mora? Rua tal. Profissão? Escritor. Idade? Idem a rua. Natural de onde? Aí me ensoberbeci: de Pernambuco, onde nasceu João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freire e Manuel Bandeira.


- Quem são essas pessoas? Nunca ouvi falar.


Silenciei.


Apalpa a rotula dali, entronca o tornozelo daqui... dói aqui? Não. E assim? Um pouco. Traciona a panturrilha pressionando as laterais da articulação ferida, e eu grito. Sentou na cadeira o doutor.


Examinou a radiografia meio assim como quem analisa um eclipse que está por vir; não diagnostica nada, pede uma ressonância que levará dias "se eu tiver sorte", me advertiu.


Finda a consulta, leva-me até a porta, e, não sei por que diabos, inferi sobre São Francisco de Assis --- talvez um quadro pendente à parede, sei lá ---, e o homem doutorou-me na biografia do santo italiano, narrando pormenores, escorregando habilmente até o ponto nevrálgico: a suposta homossexualidade do santo.


- Sabe porque Santa Clara quis se matar? Porque S. Francisco não queria nada com ela, se jogou lá numas pedras… foi isso, foi isso; mas ninguém fala nada disso, esconde, esconde, porque você sabe como é, ser gay num tempo daquele. (Séc XI). Me traga a ressonância semana que vem, tchau.


Cataplawer! Dirigi quatro quadras até em casa sem me ater a sinais, a pedestres, a nada. Como o Apóstolo Paulo teve sua epifania no caminho de Damasco, eu tive a minha num consultório. Santíssima lesão no menisco! Nunca um atleta há de ter abençoado uma lesão como eu! Sem a lesão, não teria esse médico na prateleira mental das personagens inesquecíveis!


Repare que o homem, por chalaça, ignorou a João, a Freire, a Bandeira… ou… (!) ou quis fazer pouco da minha impertinência. Até ali, 25 mil pacientes atendidos, a julgar pelos 70 anos do médico, e ninguém jamais ousou parelhar sua terra natal com a de outros ilustres da terra. Imagine Mozart informando que da sua Áustria surgiram também Maria Antonieta, Haydn, Stefan Zweig e Hitler; não, nenhum médico daria notas a um Mozart assim. Ignorá-lo-ia até ter a chance de humilhá-lo, de reduzi-lo até aquele momento misterioso e crítico em que o pó se transforma em pensamento… grande doutor Jairo! Uma lesão e um comentário imbecil servem para redimir um homem, ainda que seja para rebaixá-lo um pouquinho mais.


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