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Maria Antonieta

Pergunta: Sua Alteza Real sentiu mais a dor da “Navalha Nacional”[como ficou conhecida a guilhotina] ou a dor de ser levada em vez de uma carruagem real, numa gaiola-prisão para o sacrifício?

Maria Antonieta: Não posso crer que dois séculos depois, em vez de uma pergunta sobre a Revolução que me causou a morte e violentas turbulências na Europa, me pergunte algo tão irrelevante; é uma entrevista ou matéria para uma fofoca?

Pergunta: Sabe como é, rainha, os homens do nosso tempo são ávidos por pormenores, não querem saber da essência e sim da pulha…

Maria Antonieta: (depois de um suspiro) Minha altivez e coragem nem sequer enxergou que veículo me conduziria ao meu destino. Estava decidida a dar a vida pelo povo francês.

Pergunta: E a história dos brioches?

Maria Antonieta: Desconheço.

Pergunta: Enquanto o povo comia lama em Paris, a realeza se refestelava indiferente à miséria deles e vocêsupostamente disse que já que eles não tinham pão, que comessem brioches…

Maria Antonieta: Calúnia infame! Jamais diria um tal disparate! A Corte estava minada por bajuladores, meu consorte e rei Luis sentia profundamente os efeitos das políticas equivocadas do seu avô, e sofria junto com o povo que ele tanto amava! Selvagens caluniadores!

Pergunta: No entanto, eles comiam lama…

Maria Antonieta: Não comiam! Fazíamos contenção no palácio. Rejeitei por vezes os florais importados da China, os acepipes das vinícolas reais portuguesas, as jóias provindas das colônias africanas e o que sobra para a história é que o povo comia mal, não posso crer!

Pergunta: O Robespierre jovem fez um discurso para sua alteza e o então príncipe Luis XVI, podia imaginar que ele seria responsável pela sua morte cruel?

Maria Antonieta: Maxmilien foi um mero instrumento de interesses obscuros que deram força à Revolução, tanto é verdade que foi morto da mesma forma que a gente, ou a história renega isto também?

Pergunta: Não renega, decerto. Todavia ele se obscureceu pelo poder, que obscurece a todos… aconteceu com Napoleão, alguns anos depois.

Maria Antonieta: Napoleão! Que grande facínora! Insulta minha honra e a casa Real Austríaca ao mencionar o nome de um andarilho infame como este! Canalha, corrompedor de ilusões!

Pergunta: Ele não fez nada pior do que a monarquia, aliás até a melhorou, sob alguns aspectos.

Maria Antonieta: Asqueroso senil. Me recuso a comentar sobre ele.

Pergunta: Você entende que a Revolução foi necessária para mudar a face do Ocidente católico?

Maria Antonieta: Íamos mudar gradativamente a relação da monarquia com o Estado. Tínhamos um plano escrito para essa mudança logo quando surgiram os primeiros focos de insurgência, sentíamos os anseios do povo.

Pergunta: A senhora agora fala como um político desse e de todos os tempos.

Maria Antonieta: Os calores de uma revolução não faz ferver apenas o sangue dos inocentes. A monarquia é a ligação suprema que une os homens com o Deus Altíssimo. E pelo visto nem a ciência e tampouco a história são capazes de sentir esse poder.

Pergunta: Politiquíssima. Última pergunta, mocinha: se arrepende da luxúria em que viveu e dos excessos da Corte? Mudaria a condução de sua atuação na história francesa?

Maria Antonieta: Fiz tudo o que estava ao alcance do meu poder. Morri aos 38 anos com os cabelos cãs pelo escárnio da infâmia e humilhada por homens que se diziam representantes do povo e eram simples covardes que se aproveitavam da fraqueza de um império fragilizado. Derrotada fui pelo invulgar decreto de um grupo rebelde que detinham o poder, mas não a nobreza. A eternidade vai me isentar de culpa, como a própria França fez, restaurando meu nome e minha honra.

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