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I-Fone

O telefone celular da Apple, o iPhone, chegou ao Brasil, e sua chegada congrega tudo o que há de boçal e caricato na cultura do ter e mostrar que se tem. Delicie-se com este diálogo entre um cidadão com uma grave avaria cerebral e um atônito repórter da TV Globo:


- O que achou do novo celular?


- É lindo, acabei de comprar. Mas é o segundo.


- O segundo?!


- Sim. Assim que comprei, voltei correndo na loja pra pegar outro, porque fiquei com medo que acabasse.


Sentiram a finura contagiante do seu compatriota? A elegância verbal, o gesto impetuoso e intuitivo, virtudes que fazem dele o símbolo da nova era iPhone. Não bastou àquele humano comprar apenas um aparelho; a sanha, e sei lá que outro protozoário inquieto, o fez voltar à pressa à loja e arrematar mais uma máquina, e vai que nisto tenha satisfeito, num duplo ato, a volúpia do possuir que parece ser mais saborosa quando afagada em duplicidade.


Este homem, a quem elevo à condição primaz de “símbolo” (substantivo dos mais longevos em qualquer idioma), é o produto de uma série de falências sociais, de doenças coletivas que carcomem, urgentemente, o tecido já roto da sociedade. A petulância e a dignidade, apesar de paradoxal, caminham juntas neste episódio kafkiano, não obstante ser sintoma de um mal. Mas filósofos há que, farejando um leve odor num organismo, descartam a possibilidade de putrefação do organismo, ensinando que o mau cheiro é apenas a involução necessária à continuidade e manutenção do corpo, que sugere com ruim hálito seu hábito caótico de existir.


Se a próxima safra de homens herdar essas dignidades voláteis e discutíveis, será difícil prognosticar que tipo de tragédia dizimará a civilização: se a tecnológica ou se a idiotia. Há pouca esperança para que o embate entre estes ambos entes seja meramente casual, como os bebês gerados no carnaval.


Dotado de tremenda fé no palpável, este homem precavido e regressivo entoa sozinho, com a seriedade que convém a um visionário, o mantra supradivino que embala os porres de modernidade que vamos sorvendo a cada novo lançamento digital: quanto mais belo e moderno, mais será preenchido em nós o vazio causado pelo excesso de novidades que já não cabem mais nos bolsos e nas casas; invadem até a mente e, mais nocivo, o futuro, seriamente comprometido pelo excesso de vazio.





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