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Fui Educado Pela Arte



“Seria exagero dizer que se pode educar alguém por meio da arte”, disse o entrevistado da revista Veja desta semana, o australiano crítico de arte, aposentado, Robert Hughes. Eu fui educado pela arte. Sem a arte, minha vida seria a extensão do nada misturado com o vazio. Fica difícil de eu me ver sem a influência da arte; adolescente, eu era um sujeito estroina, dado a frivolidades, mau aluno, arrogante com os humildes e servil com os poderosos; seria, enfim, contemporâneo eterno da suma idiotice.


Mas a arte me salvou. Não sei o que seria de mim sem ela. A arte acalora minha consciência, me leva a mundos etéreos, coopta sensações extremas de prazer e contemplação. Nas periódicas e solitárias visitas ao Masp (solitárias porque companhia alguma entenderia eu ali, estático, enormes 40 minutos defronte ao “O Escolar” de Vincent), debruço-me sobre todo seu magnífico acervo (o mais rico da América Latina); de Rembrandt a Frans Post, de Picasso a Renoir, de Matisse a Toulouse-Lautrec; uma dança de grandes mestres, ao alcance dum ingresso possível. É como se eles fossem meus e eu só pagasse uma manutenção esporádica para cuidarem deles.


Mas isso é a grande arte que é diariamente corrompida pela insana patetice de novos e velhos ricos que tem o despudor e a blasfêmia de pagar 104 milhões de dólares num Picasso; arte alguma vale isso, tal valor só serve para encher de orgulho os poderosos e os bolsos de marchands, e o mais nocivo dos efeitos: afastar os mais pobres da verdadeira arte, que, desde sua concepção, não pode ser avaliada. Isto de supervalorizar a arte é, como diz o entrevistado, “uma doença social”.


Todavia, a arte não se restringe a apenas telas, pintores famosos; prestigio os anônimos da Praça da República que expõem suas obras a céu aberto, que é a maior galeria do mundo. A arte é tudo; o cantar do passarinho matinal que não ouço há tempos, exceto nas minhas memórias, e todos os demais clichês que, por já estarem armazenados na sua cabeça, me poupa o trabalho de os escrever.


A arte, para mim, não só educa como salva. Salvou a mim, não do mundo do crime ou da prática da maldade, predisposições que não encontram acolhida na minha mente, mas me salvou de poder enxergar o mundo com um olhar mais sensível, quiçá mais tolerante, trocando em miúdos, a arte deixou o mundo acessível para meu ser. Fui educado pela arte.



Escrito por Alex Menezes, às 23h30.


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