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Feliz Melancolia

Hoje cogitei escrever sobre alguma lenda esquecida; paralelo entre o Boitatá e o grande Aquiles. Uma lenda e outra não é afim, como não são afins as que hoje unem o improvável com o melancólico. Fico mesmo a pensar porque preciso iniciar com frases obscuras um texto simples, versado no coeso, no comum, no quotidiano.


Inicio-o obscuro para não melindrar e afastar a leitora que chegou tarde à casa e cedo ao trabalho, talvez tenha andado à beça até chegar aí; enfrentou o elevador e o mau humor do trânsito, et cetera.


O mistério do texto reside no fato de eu preferir a melancolia à alegria. Algo há no melancólico que enaltece e marca, que fere sem lesar, como poetizou Camões, é quase um combustível censurável já que – se é para falar de poetas – “é melhor ser alegre do que triste/ alegria é a melhor coisa que existe” se dar ao luxo à tristeza quando se pode esbaldar-se na felicidade é além de extravagante, excêntrico, ambos adjetivos muito próximos de poetas e demais seres dados a contemplações baratas.


Pode ser também que haja um fetiche nesta predileção exótica; eu que não verso versos remôo com mais fervor uma derrota marcante do que uma vitória insossa, reflexão rude que por isso pede uma referência futebolística: há-me muito mais lembranças das doloridas derrotas do Brasil nas Copas de 1982 e 86 do que das vitórias de 1994 e 2002.


Um acesso de melancolia pode gerar se não uma obra-prima, ao menos um pouco de silêncio que também é primoroso quando bem aplicado, sobretudo nos momentos penosos das grandes crises. Há quem deliberadamente elabore métodos de permanente melancolia, por julgá-la produtiva e não raro uma amiga e companheira em que se pode confiar.


A melancolia é o singular e a alegria é o plural.


Se bem dosada, pode acarretar momentos de um prazer estável e sensações pouco íntimas ou até mesmo estimulantes, como quem tenta adivinhar quem é o jazzista que canta na atividade do pleno sonho. Não se pretende com isto louvar um sentimento malquisto por maioria, talvez reabilitá-la, arrancá-la do limbo em que a jogaram, provavelmente jogadores compulsivos e artistas frustrados que não encontrando motivos para suas falências, elegeram a melancolia, que é boa ré em qualquer tribunal criado pelas alegres pessoas possuídas das mais sublimes espécimes melancólicas.



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