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Das Manias e a Autopiedade Humana



Tenho manias. Manias extravagantes, como a de continuar deitado enquanto o despertador nervoso assobia, e uma das preferidas: ficar inerte quando o momento pede ação. Manias são necessárias.


Claro que algumas pessoas exageram nelas, como a de não sair pela mesma porta que entrou, não usar azul; há homens que têm medo de cores.


Nossa sorte é que Deus não tem manias, pois olha lá de cima, talvez aborrecido, quem sabe até impassível, toda a tragédia humana se desenrolar através dos séculos; de quando em vez, faz uma intervenção aqui e outra acolá, mas nenhuma definitiva, só paliativas: destrói Sodoma e Gomorra, mas nascem outras cidades piores; inunda o globo com um dilúvio, a paz é restabelecida por um tempo e logo tudo volta ao normal. O grande cataclismo se dará quando Deus resolver pôr fim à má performance dos atores terráqueos e jogar sinuca com as esferas planetárias do Universo, todas elas se chocando umas contra as outras; o taco usado será a ignorância dos homens. Só gostaria de saber o que essa dissertação tem a ver com as manias; eis aí outra mania: a de dizer uma coisa quando o que se quer dizer é outra.


O preâmbulo talvez sirva para advertir o leitor de que é preciso um espírito de exceção para vasculhar os intrincados caminhos que levam à inocência e à sagacidade humana. Suspeito que nada há de mais remoto e selvagem neste mundo do que a sagacidade humana; a inocência é rara e efêmera, pois, como o orvalho da manhã se dissipa com os primeiros raios do sol, ela se esvai com a aprendizagem das primeiras palavras, essa ferramenta que, como o choro, torna o homem um ser político.


Procusto, o impiedoso homicida da mitologia grega, tinha a mania de atrair os viajantes para sua pousada, oferecendo abrigo e carinho; ele tinha duas camas de ferro, uma menor que a outra, que ele escolhia dependendo da altura do visitante. Depois que a vítima adormecia, Procusto a dominava e tratava de adequar o corpo às medidas exatas do leito: se ele era alto e os pés sobressaíam da borda, ele os amputava com um machado; se era baixo e tinha espaço de folga, ele esticava os membros com cordas e roldanas. Teseu terminou com a obsessão homicida de Procusto, obrigando-o a deitar no seu próprio leito, atravessado, e cortou todas as partes do corpo de Procusto que sobraram fora da cama.


Somos assim, algo “procustianos” também, com maior ou menor grau de violência, e as vítimas de nossa mania (às vezes, nós mesmos) esperam ansiosas por esse Teseu libertador que demora a agir como o Criador, porque os desígnios dos céus são incompatíveis com os desígnios e manias humanas. Se você tem, como eu, essa mania de não entender direito as coisas, retorne ao início deste texto para o fim de clarear as ideias e entender o que eu quis dizer; é exatamente o que farei agora.... Tenho manias. Manias extravagantes, como a de continuar deitado, et cetera acima.




Escrito por Alex Menezes, às 23h05.


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