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A Inusitada Festa da Madame

A madame insistiu no caviar:


– Sebastiana, mande de volta essa porcaria desse caviar barato e peça o Petrossian. Hoje eu quero o melhor do mundo na nossa festa!


Sebastiana não contrapôs a ordem da superior, pegou o telefone, ligou para o empório mais chique da jurisdição e ameaçou o atendente:


– Dona Marjore quer Petrossian, Gustavo, anotaste bem? Pe-tro-ssi-an.


A festa na casa da madame era a mais inesperada do ano. Sebastiana, sempre íntima da distância que a separava da patroa, tinha a agenda de festas de cor, sabia que, nesse tipo de mês modorrento, a mulher não recebe em casa ninguém a não ser embaixadores.


Pouco a pouco, iam chegando as encomendas: rosas colombianas, ostras sul-africanas, foie-gras de gansos criados por freiras albinas, e tudo o mais de exótico e caro que sua imaginação com saliva pode imaginar; o vinho servido era nada menos do que um legítimo Lafite Rotchschild 1967, cuja garrafa não pode ser degustada por menos de oito mil dólares.


Sebastiana, apavorada com tamanha e rara prodigalidade da patroa, calculou que ninguém abaixo de um papa podia ser o convidado da noite; atrevida, acessou pela tela touchscreen da geladeira o site da revista Contigo, para saber se o papa ou se seu ausente chefe, o Jesus, passariam pelo país naquela data; não e não.


A tensão subia à medida que a noite descia, e seu coração quase pifou quando chegou ao espetacular imóvel a equipe da cantora Ivete Sangalo; logo após, chegara a própria, algo desconfiada --- nunca cantara para público tão diminuto. Sebastiana, em vez de chorar de emoção, calculou quanto teria sido pago de cachê – “poderia comprar a minha casinha”, gemeu sem sofrer.


Os convidados começaram a chegar, e Sebastiana, quando não conhecia alguém (porque a fama efêmera confunde a gente), perguntava para a copeira Jucineia e esta sabia até o sobrenome do vira-latas adotado pela figurante da novela da Globo. Era gente muito distinta na festa; atores, gente que aparece em foto pequena no jornal de domingo; tanta beleza, que estragava o suspense do próximo a entrar na casa.


Todos reunidos nos mais de mil metros de laje, a lua a pino no céu e na piscina, todos se perguntavam à boca mínima: qual o motivo da festa? Quem era o homenageado? Só poderia ser o governador, ali em pessoa e processos, conferindo o rótulo e a idade da caríssima francesa La Grand Dame servida aos canecos, igual pobre serve guaraná Dolly nos batizados. As apostas foram muitas e ingratas. O fato mais constrangedor era que não havia, para surpresa de Sebastiana, nenhum jogador de futebol; ela que era fã do esporte bretão.


Degustadas as primeiras taças, servidas as primeiras postas dos acepipes mais inusitados e extravagantes (havia até canapés guarnecidos com espumas de tâmaras egípcias), a dona da boca livre mais dispendiosa desde o banquete do romano Lúculo, ergueu-se sobre o banquinho do piano, trilou com um garfo de prata na taça de cristal Baccarat, que produziu um silvo de ecos eufóricos, e anunciou a todos:


– Queridos convidados, muito grata pela presença de todos, comunico que a festa de hoje é em honra e homenagem a Sebastiana Pereira da Silva, a funcionária mais dedicada que uma patroa poderia ter!


O pasmo poluiu a atmosfera. Sentindo-se insultados, os convidados abarrotaram as saídas de emergência do prédio chiquérrimo e, feito fugindo dum incêndio, foram largando as comidas e as bolsas, muitas falsificadas é verdade, porque o importante, o imperioso, era fugir daquela humilhação. Até a cantora silenciou com o abuso, mas pelo menos foi a última a sair, após receber o cheque que docemente pediu para a emitente não cruzar.

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