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A Boneca de Kafka

Histórias há que, de tão belas, penetram naquele campo misterioso das lendas; nunca saberemos se é verdade ou ficção. Kafka foi um dos maiores escritores do século XX. Ponto. Entre tantas obras geniais que ele criou, a que mais me marcou foi a de ter entrado em profunda depressão quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial --- hoje há quem compre pipoca para ver o videogame do horror pela tevê. Cheguei ao delírio de achar que ele, assim como o gari anônimo que limpa as ruas das nossas cidades, ou o pesquisador que descobre um remédio novo, a professora que se esforça para ensinar um aluno tardio. Franz Kafka é uma das maiores glórias da nossa civilização.


No seu último ano de vida, caminhava Kafka ao lado da sua amiga Dora por uma praça na fria cidade de Praga dos anos 1920. Avistaram uma menina que chorava; Kafka lhe pergunta o motivo do choro:


– Perdi a minha boneca.


Para consolá-la, ele inventa uma história. Não gostava de ver ninguém chorar.


– Sua boneca viajou.


– Como você sabe?


– Ela me escreveu uma carta.


– Você está com a carta?


– Deixei em casa; mas amanhã vou trazê-la comigo.


Nessa mesma tarde, Kafka põe-se a escrever a carta da boneca. Realiza a tarefa com a mesma seriedade e a mesma intensidade dedicadas à sua própria obra. Quer substituir o objeto perdido por uma realidade que, segundo as leis da ficção, seja tão persuasiva quanto verdadeira. No dia seguinte, lê a carta para a menina. Em voz alta, diz que a boneca se cansou de viver com as mesmas pessoas o tempo todo; gosta da menina, mas precisa mudar de ambiente, ver o mundo.


Depois dessa primeira carta, vieram outras; Kafka se compromete a escrever outras cartas; duram três semanas as correspondências fictícias. Alfim, ele escolhe um final apropriado para a boneca: ela vai se casar, se despede da menina e diz que está feliz.

Os olhos da menina esboçaram lágrimas que efetivamente eram de choro, mas, ao saber que a boneca estava feliz, veio outra leva de lágrimas, e estas já eram sorrisos em forma de gotas, ainda que gotas de sal. (Tudo isso imaginado por mim.)

Ninguém sabe se esta historinha é verdadeira, apenas um biógrafo de Kafka relata em uma linha este episódio, mas sem qualquer outro detalhe. Engraçado isso; um dos maiores escritores de todos os tempos, gênio primaz da raça e eventual e irrefutável prova da existência de Deus, dedica seu precioso e curto tempo para fazer uma menina que ele nem conhecia, feliz. Certa vez, ele escreveu uma coisa que me marcou muito: “Há esperanças – menos para nós”. Deve ter escrito isso num momento de agonia, pois a singularidade de um grande homem está em fazer e dar esperanças àqueles que passam por sua vida, ainda que sejam desconhecidos. Gigante, Kafka!



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