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Ruth


Pegar na essa do caixão, conduzir o conteúdo dele à boca da terra que não se satisfaz nunca é das mais intolerantes coisas que se há de fazer enquanto se vive. Ainda mais quando o que está conformado no caixão é o corpo da companheira de 56 anos de vida, como essa Ruth Cardoso, vencida por uma dessas doenças que usa como pretexto a vasta idade para levar as pessoas para sua laia.


O ex-presidente Fernando Henrique não pôde conter as lágrimas nem o desamparo por mais amparado que estivesse, cercado por amigos e, pela posição elevada que ocupa no cenário político, por inimigos, que lá foram prestar condolências ou flertar com os holofotes, afinal, antes de políticos são humanos.


A morte de uma senhora como Ruth Cardoso que apesar de ocupar posição de destaque por consorte ser de uma das mais ilustres personalidades políticas do país dos últimos cinqüenta anos é dessas mortes que deixam o costumeiro vazio não só em parentes e em queridos, mas em todos; mesmo os que não a conheciam de perto.


É só ver-lhe a foto. Descarto sua cátedra, seus títulos honoríficos, suas honoris causas, a cadeira da USP, os livros que publicou, o vasto cabedal antropológico, a sobriedade com que lidava com o poder; jogo tudo isto fora, o que me importa é seu jeito que transpira meiguice, Ruth Cardoso tinha o rosto da sogra dos sonhos. Avó dos sonhos. Mãe, etc. Era a amabilidade, quando a amabilidade se disfarça de gente.


É fogo porque às sempre é preciso morrer, mesmo quando se tem uma obra digníssima, quando se é útil, quando se honra a humanidade com sua existência; a morte não poupa ninguém, deve ter seus motivos para não poupar, seus desígnios, essas coisas místicas.


Queria compor um texto emocionante, lúgubre, queria eu mesmo chorar enquanto escrevo, mas não consigo. Adeus D. Ruth. Se outra vida houver e se nela a senhora fizer o mesmo que nessa fez, o outro mundo há de estar em festa, porque este mundo aqui foi desfalcado de um de seus melhores caracteres. Adeus.



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