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Vicky Cristina Barcelona

Pelos braços perdidos de Afrodite! O novo filme de Woody Allen é uma miscelânea de animosidades!


Vicky Cristina Barcelona não é um grande momento do diretor, mas tem umas coisinhas nele…


A começar pelo seu instigante subtítulo, algo como “A VIDA É ÊXTASE”, sugerindo então um permita-se tudo, prove de todos os sabores, todos os sexos, todas as vontades. O popular “life is very short” é usado à náusea para fixar na lente do espectador que o viver pleno só tem a devida graça quando rompemos tabus, valores, quando excluímos o pudor e o que o ocidente achou por bem chamar de “moral”. Aliás, a escolha da cidade para rodar o filme é bem-sucedida, uma vez que toda aquela luz e todo o cálido ambiente convidam para o transbordamento de caráter, incitamento à traição, coisas só cabíveis num cenário latino --- jamais a cultura nórdica iria propor um tal rompimento.


O triângulo copioso, quero dizer, odioso, formado por Scarlet, Penélope e Barden parece um diálogo com a modernidade atrasada que vigora desde o futuro até o que achamos ser passado, mas é sempre presente. Ex-mulher, atual mulher e marido vivendo sob o mesmo teto é convite a, como fala aquela música da Ópera do Malandro, trocarem tiros. E efetivamente trocam, ou quase.


O filme também peca pelo tom “didático” ao informar às moçoilas que elas arriscam tudo projetando para suas vidas um casamento que se sabe desde o início, desde o namoro, será um fracasso. Quando uma convicta fidelidade não resiste a um verão ou a uma tentação, que nem é aquela do Oscar Wilde (“resisto a tudo, menos a tentações), é sinal de que é melhor arriscar sem arriscar. Há dois exemplos no filme: (1) uma mulher madura vive um casamento tedioso; (2) uma mulher jovem fatalmente cometerá o mesmo erro, pelo andar da carruagem do seu romance.


O tema do filme, por mais profano que pareça, flerta com o religioso, e não me refiro às catedrais de Antonio Gaudí, belamente capturadas pelo cineasta, nem pelo sugestivo “Cristina”, que evoca um Cristo feminino e libertário, mas porque ele pretende uma resposta, uma busca para a inquietude das regras sociais que --- ainda que mal e porcamente --- nos mantém tecnicamente unidos, apesar dos socos e pontapés nos bailes funks, dos exageros dos noticiários em elevar o pessimismo da crise econômica.


Assim que saí do cinema e caminhei pela Av. Paulista, rumo à casa, pensei em começar o texto com um “pelas asas de Pégaso!”; no meio do caminho, mudei para “pelas asas de Mercúrio!”, até chegar no ideal acima posto, os tais braços de Afrodite, que até este momento ainda não foram resgatados do Mar Mediterrâneo. Combinam mais com os óculos de aro grosso do diretor, e mais ainda com as belezas irritantemente sensuais de Penélope Cruz e Scarlet Johansson --- duas perfeitas exemplares de Afrodites modernas. O que foi exagero foi fazê-las beijarem-se fragorosamente. Se há homem que se excite com uma cena daquelas, eu o devo respeitar, como respeito o sol do meio-dia, evitando encará-lo…

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