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Ernesto Guevara Lynch de la Serna

Reza a tradição que Ezra Pound, talvez o maior poeta do século XX, foi seduzido pela fala de um certo Il Duce, sem rodeios, Benito Mussolini. A fascinação do poeta se deu quando ouviu um comício do tirano: ele citou por mais de duas horas Dante Alighieri, ameaçando aplicar no seu governo os nobres ideais do principal aedo da Itália pré-renascentista. Um homem tal não podia ser mais humanista, calculou com a ingenuidade dum olho infantil o bom poeta. Errou. E feio, muito feio. Sua adesão ao fascismo (e não “faxismo” como todo bom intelectual gosta) lhe custou amizades e credibilidade literária, como se o homem fosse obrigado a reter a excelência do artista, que apesar de habitarem o mesmo corpo, são seres distintos. As mais diversas publicações nacionais se renderam aos 40 anos da morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna: as de “esquerda”, destilaram desaforos, as de “direita”, elogios ao mais iconográfico líder guerrilheiro já criado pela propaganda ideológica. Quando o fotógrafo Alberto Díaz Guitierrez, mais conhecido como Alberto Korda, flagra num instantâneo o momento em que Che Guevara parece vislumbrar mais o vindouro sucesso do seu mito do que o do seu ideal, está forjada a sacralização, a mitologia guerreira da modernidade. Foi uma sacada de mestre e é mister que para ser ainda mais magistral, para fazer ferver o ouro na neve, ela tem de ser inconsciente, como a foto e a pose o foram, quero crer. Historiadores e biógrafos se debruçam para desvendar o mito, os mecanismos que o conduziram à posteridade e mais grave, mais espetacular, à cultura pop. Guevara não apenas elevou sua arte de matar a uma necessidade de mudar a realidade social, a tentar fazer o que Karl Marx chamou de “práxis social”, aquela intervenção que põe termo ao status quo e faz emergir uma nova realidade; não, ele fez mais, fez perpetuar uma vertente política hoje enfraquecida, quando não ridicularizada nas figuras de sociopatas como Hugo Chavez. Assim como o Cristo muitas vezes floresce maior que o Cristianismo, Che é hoje maior do que o Socialismo. Qual o legado de Che além de vender pôsteres, biquínis e broches com sua efígie? Ele matou alguma gente. Muita gente vá lá. Se o intento era matar para algo preservar encontramos aí um problema maior que o do teorema de Fermat. Mas problemas matemáticos se dissolvem perto da aritmética da cabeça humana que produz muito número ruim. A América Latina não seria pior nem melhor se Che Guevara tivesse sucumbido ao primeiro ataque de asma que teve aos dois anos de vida. O EUA faria gato e sapato do continente, como fez financiando ditaduras com medo do Comunismo importado da Europa, e o que representa Cuba a não ser uma caricatura arcaica, um país falido? Não houve aceleração nem atraso político, econômico ou social. Se a América Latina ainda é um abismo, um quintal do mundo civilizado, não é cabível nem certo pô-lo na cangalha cristianizada do miserável ex-médico argentino. Guevara foi um mero instrumento de um momento histórico que cria seus heróis e seus vilões ao sabor das monções e dos calendários; cabe ao tempo eternizá-los ou esquecê-los, como se faz com este triste e melancólico Ernesto. Com 15 anos de idade, consta que o pequeno Che leu Júlio Verne, Alexandre Dumas, Freud, Baudelaire, Neruda, e a dupla Marx & Engels (&!!); angariou além de alta cultura, fascínio por grandes pensadores e depois por grandes ambições; contrariamente ao Ezra Pound acima citado, que se apaixonou por um homem que citava um grande humanista, não resolveu a Che saborear grandes mentes; salvo um ridículo engano meu, nenhum desses senhores pregava a luta armada e por conseqüência o derramamento de sangue não raro inocente para promover o equilíbrio social. Se ele tivesse endurecido menos e pensado com mais ternura, é possível que transpusesse a barreira amarga da penumbra, sombra que diminui qualquer espécie de mito; ser-se anjo ou demônio sim, meio termo, jamais. Escrito por Alex Menezes às 23h38

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