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Uma Certa Senhora

Outro dia, viajando de metrô rumo à escola, uma moça dona, mas improvável possuidora dos seus vinte e poucos anos (estavam hipotecados pela necessidade, presumi) vendia balas, dessas que dão prazer e cárie. Ser honesto, nos dias de hoje, se transformou em elemento de virtude, quando devia ser obrigação.


Alguns dizem:


- Pago as minhas contas em dia!


Há mérito nesta ação? Num país em que comerciais de tevê vangloriam a famosa malandragem brasileira (ver comercial da Skol), ou incute sutilmente a idéia de que é saudável e até salutar criar o filho sem o pai (ver comercial da Knoor), tudo é possível. Aliás, o mundo encantado dos comerciais de tevê merece um profundo estudo. Que país seria aquele em que as pessoas são todas magérrimas, lindas e de pele alva. Alva? Alvíssimas, tanto que perto da neve, a neve seria mulata. Velhos só podem aparecer quando o produto vendido for juros exorbitantes para aposentados. É um verdadeiro paraíso, o mundo dos comerciais. Humm. Paraíso.....será então que....humm....por esse motivo....alguns publicitários.....políticos, digamos....esconde dinheiro em Paraíso Fiscal? Me perdoem, sei que esse trocadilho não presta. Mas é curiosa arte a desses publicitários.

A moça do metrô. Vamos chamá-la de Vera. Pronto, está batizada. Quem usa transporte público sabe que se vende de tudo nos trens, ônibus, metrôs, e se formos a Manaus não será surpresa ver gente vendendo algo nas barcaças. A criatividade é quase igual à dos marqueteiros dos comerciais. São chocolates, doces, cigarros, isqueiros, cortadores de unha, relógio, pneu, gravador, pano de prato. Às vezes o próprio prato. Primeiro passa o cara que vende o prato; depois se a venda for consumada, calcula o outro vendedor, que o cidadão precisará do pano. Óbvio!

Vera deixou seu pacote de balas no colo de um homem que lia jornal (não era eu) e quando veio recolher o pacote ou o dinheiro, qual não foi sua surpresa quando o homem, sem tirar os olhos do jornal, lhe estendeu uma nota de 1 real junto com o pacote de balas. Ela ficou ofendida; pegou seu pacote e recusou o dinheiro. Não queria esmola. Que fantástico ato de nobreza! Duvide-o-dó que eu tivesse condições de fazer igual (recusar a nota). Se eu estivesse armado com uma câmera, filmaria esse episódio e o mandaria para Brasília. A propósito, o nome Vera vem do latim, e significa mais ou menos “aquilo que é verdadeiro”. De onde deve vir, por derivação, o termo Veracidade, eis um modo romântico de ver a cidade.



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