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Simplesmente Tudo






Tenho me sentido “in” tudo. In potente. In competente. In disposto. In tratável. Só não consigo a explicação para tantos “ins”. Suspeitei rapidamente que fosse o ciclone bangladeshiano que riscou cerca de 10 mil asiáticos do mapa; mas a morte é um fenômeno tão geral e tão ordinário que o que espanta não é sua incidência sempre pontual, mas a gente continuar a se espantar quando ela aparece meio assim, por atacado. Quem sabe não foi o caso daquela menina de 15 anos que ficou presa numa cela com 20 detentos no interior de Minas Gerais porque furtou uma pasta de dente? Pode ser. Isso maltrata a gente mais que a morte, que machuca só uma vez. A adolescente era abusada dia e noite, relatou que só tinha folga às quintas-feiras, dia de visitas. Os policiais se defenderam de forma catedrática: disseram que ela parecia ter 18 anos, motivo que, por naturalidade, legalizaria sua prisão na mesma cela dos marmanjos.


Talvez ambos os fatos tão discrepantes entre si, até incomunicáveis, a saber que é possível que nenhum cidadão de Bangladesh tenha ferido seu ouvido com a notícia da menina mineira e, mais grave, a menina não faça a mais vaga idéia não do ciclone que arrasou o país do oriente, mas do próprio país, que pelo nome exótico, tradição e cultura parece ser mais obra de ficção, saído das páginas do Tolkien, o super lingüista criador do Senhor dos Anéis. Não seriam ambos os fatos, definitivamente.


Talvez uma desilusão amorosa. A precariedade da defesa do Corinthians eu suspeito que não tiraria meu sono nem bem-estar; o que será que me aflige?


Vou arriscar em confissão: o culpado da minha anemia psíquica é o Shopping Metrô Tatuapé, na zona leste de São Paulo. O letreiro imensíssimo alerta o visitante:


“SIMPLESMENTE TUDO”


Viram? Simplesmente tudo. A Via Láctea, aquela faixa leitosa que sulca a paisagem do Sistema Solar, precisaria de 100 mil anos para ser superada de ponta a ponta com uma máquina que viajasse a velocidade da luz. Parece que não obstante esse gigantismo galáctico, a Via Láctea esse leite, que por ser espacial é puro, sem soda cáustica, água oxigenada e outros mimos químicos, já que ela não precisa de aditivos nem de má-fé para se conservar, não é tudo, porque o tal Shopping seria? Não me venham com mesquinharias publicitárias: “Ah Alex, é só propaganda!”. Não é por rabujice. O próprio Lula, ao lançar sorrateiramente na mídia a idéia do terceiro mandato, fará crer aos eleitores quando o tempo chegar que é necessário um terceiro mandato, para ajeitar as coisas. O Shopping, fazendo-se vender como “Tudo” empresta a quem nele compra um certo ar universal, faz o consumidor crer que é parte de “Tudo”, que é importante, que é comprador não de qualquer shopping, mas do shopping que engloba todos os demais, porque é TUDO.


Não sei se o contato com muitos vinhos ou com o oxigênio tem afetado meus princípios; desdenhar 10 mil óbitos ou um caso até grave de prisão irregular de uma menor me afete menos que um simples letreiro de shopping center, essas catedrais do capitalismo, é um sintoma grave. Chamo atenção para o fato de que abusos, mortes em escala industrial, absolvição de políticos corruptos já faz parte do folclore mundial, mas tentar enfiar na nossa goela ocular que um shopping center é tudo, isso sim merece uma análise morfológica, técnica, econômica que seja, filosófica. Vou embrulhar esse rascunho e enviá-lo para Aristóteles, quem sabe ele não tenha um desânimo para curar essa insânia toda?




Escrito por Alex Menezes às 00h36


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