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Rosas a Luther King

Martin Luther King, há exatos 40 anos, 04/04/1968, foi compulsoriamente convidado a deixar o mundo dos vivos e habitar o hades grego. Na mitologia, Perséfone, raptada por Hades, viu-se obrigada a morar no “mundo subterrâneo”; e por efeito de uma simples semente de romã, fez um acordo com o deus dos mortos e ela podia viver metade do ano no Olimpo e outra no domínio de baixo. A King não se deu o mesmo direito, prova vivaz de que nem sempre a vida imita a arte.



Imita em parte. A voz do reverendo continua a ecoar das profundezas do abismo em que ele está hospedado.



Duas Rosas são paradigmas na vida de Luther King. Uma é a judia polonesa Rosa Luxemburgo, talvez a maior ativista política da primeira metade do século XX e, como King, brutalmente assassinada pela intemperança fundamentalista, num inverno qualquer de 1919, na Alemanha.



A segunda é Rosa Parks. Em 1955 ela deflagrou a maior manifestação contra a segregação racial desde Abraham Lincoln, quando se recusou a ceder seu lugar para uma mulher branca num ônibus. Rosa Parks foi presa.



A partir deste evento acendeu-se a chama da militância em Luther King que o levaria ao hades; para ele pouco importava, sua vida tinha um sentido muito mais coletivo do que individual, era dessas vidas pinçadas para causas mormente colossais que solapa o caráter pessoal da sua existência.



Um Luther King morto e melhor ainda, no zênite de sua performance, vale muito mais do que dezenas de Kings vivos; é um estranho fenômeno que faz com que a pessoa morta tenha mais voz e mais poder do que se permanecesse viva. Foi assim com o Cristo. Jesus, caso o Sinédrio (a corte suprema judaica) não votasse a favor de sua paixão, corria o risco de se tornar um revolucionário comum, é a morte que confere magia e carisma à biografia desses homens especiais.



“Quando se olha o passado, os mitos crescem. (o mito Senna) não aconteceria com uma pessoa viva. Não aconteceu com Schumacher, embora ele tenha conquistado 7 títulos mundiais. Ele teria de ganhar 7 campeonatos e morrer em sua última corrida para isso acontecer com ele”. – Alain Prost, tetracampeão de F1 em entrevista a uma revista francesa.



King imortalizou uma frase aparentemente banal, dita quando se acorda de um torpor, “l have a dream” (eu tenho um sonho); o efeito da frase pulveriza o aspecto singelo da fala, conferindo-lhe uma aura quase mágica, como se o sobrenatural e só ele pudesse intervir para tornar as mazelas do mundo mais digeríveis. A frase faz mais rumor do que muitos tiros de canhão, derrama muito sangue é verdade, mas o sangue é um componente imprescindível para se fazer a história da civilização. King ou o seu sonho, por mais mortos que pareçam estar, prosseguem desafiando o tempo, e vivendo.




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