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Ratatouille

O cinema produz muitas fantasias reais. O sueco Ingmar Bergman já tinha decidido morrer para o mundo; hoje apenas homologou a decisão no âmbito pessoal. O que dizer dele? É Culturice e até um floco normando de pedantismo falar sobre seus filmes, mesmo porque os conheço pouco: Bergman entrou no meu mundo quando meu mundo já estava viciado e entorpecido por tons ocres. “Tons ocres” é querer fazer cinema com palavras, e cinema se faz com alma; a palavra é só matéria. Ele acabou aos 79 anos.


Dois filmes que em nada ou em tudo têm a essência de Bergman se completam pela disparidade entre si: Ratatouille (de Brad Bird) e Quebra de Confiança (de Billy Ray).


Em Ratattouille, um simpático ratinho quer ser chef de cozinha na França; nada menos. A julgar pelo pouco zelo que os franceses têm tradicionalmente pelo asseio, não admira; a julgar pelo fundamentalismo religioso com que defende e louva sua gastronomia, espanta. O ratinho é a negação de tudo. Baseado neste axioma, ele se alicerça bem: há uma maneira de negar, várias de afirmar, e por esse tênue caminho ele persegue seu destino: ser chefe numa Paris suculenta de arrogâncias. Consegue. Mas tem a ajuda de um humano, que é quem ventriloca (acabei de inventar) as habilidades do animal; o resultado é um sucesso absoluto de critica e público. O rato cadencia a trama: suas emoções, mesmo quando ocultam sua imagem, são transmitidas pela surpresa do porvir: o que lhe ocorrerá? Um esmagamento? Não. Ele se torna adorado, não importando aos humanos que seja rato, subespécie: não o enxergam mais a ele como tal. Linguini, o humano, o apelida de “Mini-Chef”; é comovente, lúdico e carinhoso. Saí do cinema repetindo sem parar “Ei Mini-chef!”, como quem acalanta um amigo imaginário – ou real.


Em Quebra de Confiança, ocorre o oposto. Um alto agente do FBI é investigado por espionagem. O homem a não confiar no homem. Trivial seria a fita, se não fosse por um detalhe: quando preso, o agente é interrogado por um colega sobre o porquê da traição; a resposta: “O significado pouco importa, e sim o fato”. Genial! Bergmaniano. Fosse um rato, o agente não carecia de ser investigado; ainda que vendesse as chaves do Forte Knox (a maior reserva de ouro do mundo) aos russos, seria perdoado: era rato.


Por naturalidade, podemos prescindir de Bergmans, Felinis, Truffauts, Brandos; podemos até mesmo viver sem Saddam Hussein. Mas nunca, até o último dia que o sol inventar de aquecer a terra – um dia ele há de cessar –, poderemos prescindir de sonhar, e Bergman, como o cinema, o mau ou o bom, nos faz sonhar --- seus Morangos, além de Silvestres, serão eternos.

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