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Poema


O escritor, aborrecido, magoado e acamado pela impiedosa gripe, isenta-se de algo hoje escrever. Mas não o deixa órfão: Machado escreve por mim:



"Potira"



Moça cristã das solidões antigas,

Em que áurea folha reviveu teu nome?

Nem o eco das matas seculares,

Nem a voz das sonoras cachoeiras,

O transmitiu aos séculos futuros.

Assim da tarde estiva às auras frouxas

Tênue fumo do colmo no ar se perde;

Nem de outra sorte em moribundos lábios

A humana voz expira. O horror e o sangue

Da miseranda cena em que, de envolta

Co'os longos, magoadíssimos suspiros,

Cristã Lucrécia, abriu tua alma o vôo

Para subir às regiões celestes,

Mal deixada memória aos homens lembra.

Isso apenas; não mais; teu nome obscuro,

Nem tua campa o brasileiro os sabe.


II


Já da férvida luta os ais e os gritos

Extintos eram. Nos baixéis ligeiros

Os tamoios incólumes embarcam;

Ferem co'os remos as serenas ondas

Até surgirem na remota aldeia.

Atrás ficava, lutuosa e triste,

A nascente cidade brasileira,

Do inopinado assalto espavorida,

Ao céu mandando em coro inúteis vozes.

Vinha já perto rareando a noite,

Alva aurora, que à vida acorda as selvas,

Quando a aldeia surgiu aos olhos torvos

Da expedição noturna. À praia saltam

Os vencedores em tropel; transportam

Às cabanas despojos e vencidos,

E, da vigília fatigados, buscam

Na curva leve rede amigo sono,

Exceto o chefe. Oh! esse não dormira

Longas noites, se a troco da vitória

Precisas fossem. Traz consigo o prêmio,

O desejado prêmio. Desmaiada

Conduz nos braços trêmulos a moça

Que renegou Tupã, e as velhas crenças

Lavou nas águas do batismo santo.

Na rede ornada de amarelas penas

Brandamente a depõe. Leve tecido

Da cativa gentil as formas cobre;

Veste-as de mais a sombra do crepúsculo,

Sombra que a tíbia luz da alva nascente

De todo não rompeu. Inquieto sangue

Nas veias ferve do índio. Os olhos luzem

De concentrada raiva triunfante.

Amor talvez lhes lança um leve toque

De ternura, ou já sôfrego desejo;

Amor, como ele, aspérrimo e selvagem,

Que outro não sente o herói.




Escrito por Alex Menezes às 23h17


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