Paris e a Dor do Mundo

“O meu coração é o sol pai de toda dor/quando ele lhe doura a pele ao léu...”. – O Leãozinho – Caetano Veloso.


Acompanhando, gerúndio útil, essa lúdica canção do Caetano no carro em vez de eu cantar “cor”, como diz a letra, eu dizia “dor”. Dor e cor. O estribilho é repetido três vezes. Três vezes eu dizia dor.


Não sei que dispositivo inconsciente pretere a cor em auxílio da dor. Desse desleixo vocabular pude elaborar o diagnóstico de que minha cabeça carece de reparos urgentes. Poderia até manter a culpa na cidade onde vivo, ausente de cor, censurar sua opacidade.


A conclusão primária que encontro é que ando envolto em muita dor e, parafraseando outro poeta, “tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”; todavia julgo essa assertiva simplista demais, uma vez que a complexidade da dor tem como coluna máxima não apenas o anseio de negá-la, mas também o de não aceitá-la como elemento limitador de abusos. Acho que aderi muito pensamento a poucas palavras.


O que anseio dizer é que a abundância de dor imobiliza, ou automatiza, até essa figura impalpável do nosso ser o qual chamamos vulgarmente de inconsciente, mas que no fundo, ignoro a explicação psicanalítica, é a reação da nossa natureza pacífica a enorme decrepitude social, moral e política que assola veementemente esta atualidade corroída pelo vazio.


O jornalista norte-americano Lee Siegel fez um importante estudo desse vazio social, uma crítica ao triunfo glorioso da era digital: “Vivemos não mais sob o efeito da cultura de massas, mas de uma cultura produzida pelas massas”, percebe Siegel merincolicamente.


Paris Hilton, profissão desconhecida, valor pessoal idem, é a personalidade, ao lado de Britney Spears, mais acessada na Internet. Milhões de pessoas querem saber o que ela comeu, ou ao menos se comeu. Diferentes de mim, que anseio por desvendar o mecanismo do inconsciente, essas pessoas se comprazem com uma simples notícia sobre se Paris está livre ou sob os cuidados de uma prisão, ou se comprou um batom anis. Essas coisas.


“É a epidemia da mediocridade, ainda sem cura”. Pontuou a escritora Susan Jacoby.


Eleger Paris Hilton como símbolo decadencial é menos um oportunismo do que um sintoma; seu próprio nome evoca a essa fraqueza, ao Paris original, aquele medíocre filho do rei Príamo, o mais célebre parasita da mitologia. Não tivesse o covarde, com a ajuda de Apolo, aniquilado o grande Aquiles, seria uma vírgula na imensa biblioteca da História; a atual Paris não tem nenhum Aquiles para ofender, apenas muitos para hipnotizar com seu magnetismo imagético; a massa delira com sua hipocrisys (máscara, em grego) sonhando ver por detrás dela um alento, mas é só o que esconde o sarcófago.





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