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Para Um Amigo





Tenho um amigo, nascido em 1927, portanto dono de 80 anos de idade, que está na batalha derradeira da sua longa vida, hospedado numa UTI. Dá um pouco de dor, outro pouco de resignação, um fragmento qualquer de convencimento de que a morte é o mais democrático fenômeno que existe uma vez que não poupa rico nem pobre, Estado ou religião. O culto aos deuses gregos era uma religião séria, como o catolicismo e o islamismo. Mas a morte lhes sobreveio, impávida.



A morte talvez faça parte da natureza. Se assim for, ela não apenas esgota e extingue, mas também transforma. O que antes era uma sofisticada teologia que homens de respeito cultuavam com fervor (as divindades do Olimpo) se transfigurou em literatura da melhor qualidade. Sou quase obrigado a louvar a morte. Mas não darei ponto a um inimigo tão mortal e repleto de ardis; quem sabe essa “transformação” não seja mais um ardil entre tantos?



De qualquer maneira, se for inexorável a resolução dela em levar embora meu amigo enfermo, que ele se transforme nalguma coisa que faça valer a pena sua longa existência. Falo bobagem. Ele já patrocinou sua consubstanciação positiva em vida. O que pensar de um homem que conserva uma amizade de 58 anos? Sim, ele tem amizade que duram 58 anos de vida.



Morrer não é o pior. Para mim, o pior da morte não é outra coisa senão o ato de enterrar a pessoa e ainda há outro pior: deixar a pessoa, outrora tão querida, ali enterrada, entregue aos vermes. Os índios da tribo Wari comiam seus mortos por achar indigno deixar o cadáver apodrecer embaixo da terra. Nos banquetes fúnebres eles louvavam seus mortos com um humanismo que a “civilização” não conseguiu compreender.



Alguém por aí deve se lembrar de Catão (243-149a.C), o célebre estadista e orador romano, (o equivalente ao nosso Padre Vieira, o maior orador sacro da nossa língua) não pela sua morte orgulhosa; sua espada enterrada no próprio ventre após ser derrotado por César, mas por vaticinar ao fim de todos os seus discursos: “Cartago delenda est”(Cartago tem de ser destruída). Nós, não podendo matar a morte, nos juntamos a ela, pois diz aquela lenda ordinária que quando não podemos com um inimigo, nos juntamos a ele. Mortis delenda est.





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