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O Xale




Esmaguei entre os olhos um livro de 82 páginas duma escritora americana chamada Cynthia Osick. A narrativa é pungente, o tema não menos. Perpassa a história de uma mãe nos campos de concentração nazista que tenta salvar seu bebê embrulhando-o num xale. O xale passa a ser tudo: ninho, casa, bicho de estimação e irmã – além de fonte de alimentação para a criança. Os nazistas descobrem o esconderijo de Magda, o nome da menina. Jogam-na numa cerca elétrica. A partir daí os sentidos perdem o sentido para a mãe e tudo em volta se transforma em surrealismo, é um mundo absurdo que faz com que o mundo habite nela e não o contrário.



O modo de se superar e/ou encarar uma tragédia é pessoal e intransferível. Como sociedade ou indivíduo. Durante a segunda guerra ou a primeira, sei lá, os moscovitas foram ameaçados com bilhetes despejados na cidade por aviões alemães. Neles se dizia que a cidade seria invadida e reduzida a pó. O que fizeram os cidadãos? Construíram trincheiras em derredor da cidade e, alto inverno, os tanques alemães foram impossibilitados de adentrar a cidade e muitos soldados nazistas morreram de frio pois era impossível retornar ou seguir adiante.



O país onde vivo é incapaz de lidar com tragédias, ou ao menos de encará-la com dignidade. Na tragédia da moda, nas obras do metrô de São Paulo, causa repulsa a exploração sensacionalista da mídia em torno do fato. Tal é a falsa comoção criada que para o epicentro da ocorrência afluem pessoas curiosas com a desculpa de prestar “solidariedade” e na verdade apenas tumultuam o trabalho das equipes de resgate. É triste saber que nossa sociedade é e está despreparada para as próximas tragédias que hão de vir.



Repórteres entrevistam exaustivamente árvores e postes. Um psiquiatra forense diz “que é o lado humano”, eu chamo de fanfarra midiática. A imprensa irresponsável não sabe ocupar seu lugar de “4º poder” (deixe-se quieto no seu caixão, Montesquieu) e não há quem a censure por isso; isso é isto: a exploração de agonia alheia. Não basta a eles apenas noticiar, é necessário explorar, dissecar, cansar. A população deixada em transe, acompanha feito novela o drama das vítimas, só que no final, não haverá holofotes.



Deveria ter continuado a falar do livro que li. Magda era magricela. A mãe era como um berço ambulante, e Magda andava ao som da marcha assim, como quem já é um anjo flutuante...





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