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O Padre Incendiário





É decisivo não importar qual a sua inclinação religiosa para averiguar o grande dilema a que fomos expostos com o caso do padre Lancelotti. Pesou tanto minha reflexão, que caiu de madura. A igreja como instituição é das mais importantes no traçado sinuoso que são os pontos cirúrgicos que costuram esse ente eternamente enfermo chamado sociedade. Aí me nos aparece um padre, repleto de prestígio e carisma, que tem grande penetração em programas voltados para a amenização da miséria e nos lamenta quando esperávamos que expurgasse a tragédia de uns trágicos.


Quando começo a me contemplar, eu me aflijo. A igreja católica tem tisnada a sua imagem com seus sacerdotes ganhando as páginas dos jornais na pior chaga – para usar um termo adequado – que uma organização dita religiosa tenta mais prezar, a moralidade. A pedofilia é uma chaga. Quando penduraram o Cristo naquele madeiro, suas dores excruciantes eram como que um prenúncio para as aflições que o mundo ia provar.


Pelo que li do caso, é muito difícil que o padre esteja imaculado. Pagar propina em troca de silêncio soa ingênuo e, pior, criminoso, juridicamente falando. E a propina era alta; fala-se em 80 mil reais. E ainda mais alto é o escândalo porque a ONG mantida pelo padre capta dinheiro público que fede muito mais que o privado quando usado para as lascívias de cristãos e não cristãos.


É delicada a situação dele. Sinceramente eu nem sei o que escrever. E daí por isso desvio o foco e viajo com você para as chamas que consomem toda a Califórnia, simplesmente o 8º PIB do mundo, se ela fosse um país. A comoção das tevês norte-americanas em torno do John Travolta que perdeu a casinha, daquele outro que ficou órfão da mansão, é de deixar o coração pelo avesso. Quando o furacão Katrina devastou Nova Orleans, um dos lugares mais pobres do EUA, a comoção ganhou mais tinta porque era “a terra do jazz”. O certo no mundo do culto à personalidade é ser famoso; milhares de pessoas doando a vida para fazer a fama da tragédia ainda maior e eles preocupados com penduricalhos. Na Califórnia é diferente. Os hotéis estão cheios. Muita gente chique. O que maltrata a minha alma é que eu também queria ser chique, ter avião, ilhas, bolsas de pele de dinossauro, essas coisas.


A gente (a gente sou eu) acende a TV (viu por quê?) e só vê escândalos, roubos, assassínios, corrupções, incêndios, desabamentos, crises políticas, crianças abandonadas, traficantes, filmes de traficantes, o crime é pop. Mudo de canal e vejo CPMF, leite (leite!) adulterado com soda cáustica (!), água oxigenada (!!) pelos que têm sede de lucro; um terremoto que acaba de saracotear a ilha de Sumatra, policiais extorquindo dinheiro de bandidos e o pior, muito pior; você se aloja na sua cadeira macia, deve até passar um batom, concertar o vestido, elaborar um penteado especial, para ler esta coluna e lê tudo o que já a aborreceu na noite anterior. Não sei o que fazer para me redimir. Talvez um ramalho de tulipas amarelas resolva. Se resolver, cole com letras grandes seu endereço, o próprio Toulouse-Lautrec, com sua estatura de duende e óculos de escritor, as vai entregar.





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