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O Mito do Processo Criativo




Saí do metrô, cavalguei as escadas, olhei-a sem espasmos, interpretei seu pensamento e meu olho imediatamente informou ao cérebro que ela havia uma beleza sideral.


O que é uma beleza sideral? É igual a nada. E pode ser até menos que nada, pode beirar o menos negativo. O processo criativo muita vez embaça aquele que consume a criação artística. É o meretrício do artista. Pode-se chamar abstracionismo, o que equivale a dizer que a criação é mui complexa e que por esse efeito só se permite ser entendida pelo corre-mão da abstração, espécie de muleta, um guia para o incognoscível.


Calha bem para artistas “incompreendidos”, ou a outros que em vez de dominar sua arte, é dominado por ela. Pintores são os artistas mais propensos a usuários desses vícios, vez que as artes plásticas, amparadas pela variedade do que vê cada olho humano, anuncia ver num rabisco e às vezes num mero rabisco uma torre, uma pomba, um rinoceronte e quando menos se espera, lá está uma nuvem que flutua só na pupila de quem vê.


O processo criativo é um mito. Igual agora. Eu não sei o que dizer; a engrenagem do “palavra puxa palavra” tem de me socorrer se eu não quiser esgotar sua paciência e findar de modo melancólico isto, que não pode ser classificado como nenhum gênero literário; não pode ser poesia nem crônica, artigo ou jornalismo, o que penso, é que isto parece um influxo da mente ou um “preia-mar” como preferem os portugueses, isto é uma tentativa de explicar o inexplicável, e o mais extraordinário, o que toca e comove, é que você me segue, quer saber o resultado, espionar até onde vai dar essa matéria sem pé nem cabeça, esse texto que nasceu acéfalo.


Se não causar comoção o fato de eu, qual pretensioso, me julgar um artista, ainda que banal, concluo sem demora que a obra seja ela qual for depende mais da boa vontade de quem a digere do que da de quem a produz; questão de marketing e boa mídia, se é que você me entendeu. Isso de perguntar ao leitor, ao expectador, ao ouvinte da música, rainha de todas as artes, se ele entendeu suas propostas soa além de deselegante uma grosseria sem tamanho; mesmo se o autor, tomado da pretensão e arrogância que costuma possuir muitos artistas (maus e bons, sobretudo os dois), souber que sua criação não está ao alcance de simples mortais, se ele se julgar superior demais, não é correto subestimar aquele que o sustenta, seja com pecúnia, seja com afagos, que é sim senhor uma preciosa unidade de valor; ele deve calar. Sob pena de ter cassado o direito de produzir. O processo criativo é isso; charme, invencionice, meio para burlar a mediocridade, ação que faz daquele que se pretende artista ser superior, sublime, maior até do que os sensíveis espíritos que o mantém.




Escrito por Alex Menezes às 00h07


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