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O Livro do Meu Amigo




Nada. Absolutamente nada dá mais status do que um livro. Nem uma bolsa Louis Vuitton. Nem uma jóia Tyfannys Co.; um relógio Breitlieng. Uma narrativa da viagem, dentro do ônibus, para o Taiti não confere ao narrador exibido mais status que um mero livro. Pode ser até aqueles rotos, de sebo, as páginas mendigas, pode ser até de um mau autor. Não importa. Quem aí não espichou o nariz para ver o título do livro do passageiro que senta ao lado? Eu espicho. Até leio junto quando a proximidade é demais ou até de menos. Reclamo, mentalmente, quando o dono do livro vira a página, inadvertidamente, sem perguntar se eu também já tinha terminado, não gosto quando fazem assim. Vejo mesmo. Da estação do Anhagabaú até a Carrão, onde sou despejado, dá para ler sem problema, caso o dono colabore, seis páginas. Já contei. Li quase toda a saga do Senhor dos Anéis, quando era moda. Pena que às vezes me confundia porque os leitores não têm sincronia; um lia um primeiro volume, o outro já ia para o terceiro. O Código Da Vinci li sem precisar ler. Todo mundo falava dele no metrô ou no velório, o que me poupava alguns vexames.


Na segunda-feira saí do lançamento do livro de um amigo na Livraria Cultura. Carregava-o, já a liquidá-lo. Novinho, uma capa linda. Sou esnobe quando o assunto é livro. Lia-o como se estivesse desfilando de Mercedes conversível na orla do Guarujá. Esticava a capa, que reluzia. Uma senhora imediatamente veio me perguntar: “Mas esse livro é daquele menino do jornal? Ouvi falar, mas não ia ser semana que vem o lançamento?”, ia exibir orgulhoso a dedicatória, que está assim: “Para o amigo Alex, este decênio de “brigas”e alegrias, do amigo (nome dele), 1/10/2007”. É uma coletânea de textos publicados por ele nos último 10 anos, em jornal. O jornal, como queria Machado, “é a literatura universal, altamente democrática, levando em si o fogo das idéias”.


Apesar da vontade, não ostentei o autógrafo. Seria uma boa vingança, já que ela me estorvou a leitura... estorvou; não posso resistir, olhe isto: “estorvo, estorvar, exturbare, distúrbio, perturbação, torvação, turva, torvelinho, turbulência, turbilhão, trovão, trouble, trápola, atropelo, tropel, torpor, estupor, estropiar, estrupício, estrovenga, estorvo” isso é o preâmbulo do livro Estorvo de FBH.


Confesso a vocês que me olham com esses olhos secos porque a tela é árida, que o papo com a senhora apesar do atrapalho foi ótima, professora, cheia de idéias, e reclamos da (falta) educação do nosso país. Ela me ensinou tanta coisa em tão poucas estações! Se estivesse folheado numa bolsa Prada, cheirando um perfume CK One, ela não se atreveria a me aborrecer, aposto. Livro é um luxo, é claro. Mais inacessível do que qualquer “objeto do desejo” que se vende na Oscar Freire; há uma sucursal oficiosa que dá acesso a essas coisas que são, (por que não confessar?) ótimas lindas e sedutoras, sofisticadas...; de livros não há sucursais, eles são ariscos, não toleram chamego. O livro é a maior tecnologia já criada pelo homem. Não sei onde li, acho que no livro do meu amigo, que alguém disse que quando um velho morre na África, uma biblioteca inteira é incendiada. Consumam livros.





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