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O Gari em Forma de Tulipa


Tão raras são as minhas ações dignas de nota concernente à coesão social que quando executo uma, por mínima que seja, já a quero estampar em folhas públicas. Um copo para vinho de minha estima se espatifou enquanto o lavava; o seu bojo flanqueado parecia uma tulipa de cristal. Tulipa perigosa. Li uma matéria acho que em 1989, um dia 15 de novembro, em que se relatava quanto os garis (coletores de lixo) sofriam lesões por latas, lâmpadas, cacos de toda ordem, transformados em armas de destruição de mãos desses valentes operários, tão úteis ao desenvolvimento urbano quanto um...: imagine você.


Catei, como se “cata” as minas por aí, os cacos do copo, cortei a caixa de leite longa-vida e guardei os restos daquele ex-recipiente que tantos taninos saborosos abrigou dentro dele e me ajudou a sonhar. Ficou ali naquele invólucro improvisado, livre de atacar sorrateiramente a mão dos nossos amigos garis que correm tanto pela cidade, maratonistas sem medalha, em busca de um pódio em forma de um salário que não deve ser apenas injusto, mas injustíssimo, seja ele quanto for.


Um coletor de lixos merece uma loa, merece a capa da Caras, uma exclusiva no Jornal Nacional, ou Internacional. Merece um flash por segundo, um desconto em lojas de roupas, merece até uma isenção nos restaurantes, como ganham essas pessoas que aparecem na televisão. Veementemente, eu considero um coletor mais útil e agradável do que a _ _ _ _ _ _ _ _ ou o _ _ _ _ _ _ _ _ _; prefiro o gari à (cabe crase?) aquela instituição _ _ _ _ _ _ . Veja como são as coisas. Queria apenas falar de uma boa ação e o texto me leva, quase me obriga, a fazer uma homenagem a esses rapazes e moças dedicados à higiene e ao bem-estar comum.


Em suma, o que importa é o fato de que o meu desastre doméstico não se transformou na lágrima de um agente importante da nossa vida gregária. Talvez não seja útil essa minha escritura. Mas siga-me:


Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Sr. Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Argüíam-no de avareza, e cuide que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz mandara-lhe tirar o retrato a óleo. Não era perfeito, decerto; tinha por exemplo, o sestro (mania, vício, grifo meu) de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava,--sestro repreensível ou não louvável concordo; mas ele desculpava-se dizendo que as boas ações eram contagiosas, quando públicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que ele não praticava, de quando em quando, esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição sine qua non. Em suma, poderia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém. Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. CXXIII


Que achou? Ganho senão a sua simpatia pelo menos a sua razão. Adeus e prossiga a fazer boas ações por aí; se não as fizer, ao menos divulgue as que porventura cogitar; por insignificantes que possam parecer, pode significar muito para outros. Pronto, danou-se, era só o que faltava: virei autor de auto-ajuda.




Escrito por Alex Menezes às 19h14


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