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O Farol da Virada Cultural

Esquina da Avenida São João com rua Aurora, muitas horas e poucos minutos da noite de sábado, Virada Cultural, São Paulo.



Um guindaste eleva aos ares duas meninas malabaristas (uma das quais quase bela); ambas perfaziam evoluções em argolas metálicas; espocavam flashes e ininterruptos gritos de “gostosa!”, a vestimenta sumária das moças, as pernas que pareciam estar “pra fora”, nunca estiveram tão dentro dos homens. Gal Costa cantava clássicos da MPB que a platéia cantarolava em uníssono, às vezes errando a letra. Muita gente por redor. Ambulantes de cervejas em punho as ofereciam e, ato contínuo, as negociava: produto de fácil aceitação.



Todas as tribos ali reunidas, skin heads com um penteado moldando um capacete greco-romano, emos circulando sem esbarrar em ninguém, gente diferente não toca os diferentes, andavam como quem caminha na neblina, tateando o vazio.



Em meio a todas alucinações causadas pelo frisson de muita gente reunida, o semáforo da Avenida São João parecia indiferente à concentração humana, e prosseguia seu ofício de modo protocolar; verde, num empurra-empurra, amarelo, num beijo apaixonado de um casal que parecia estar junto há tempos, ou pelo menos desde o início da Virada, e finalmente vermelho, sinalizando passagem livre à descontração.



É incrível que os organizadores do megaevento que parou o centro da cidade e o entorno não tenham atentado para este detalhe, dar folga aos semáforos. É incrível que eu não tenha percebido que isto era um efeito decorativo, essas coisas.



Passeando por outro canto da cidade, alta madrugada, captei um som oriundo das mudanças do semáforo, fazem ruídos as mudanças na sinalização. Ali, abafado pelo estrídulo do potente sistema de som que saia do palco, o som parecia emergir, mas de modo surdo, ou era um som cromático, denunciado apenas pelas mudanças tricolores.



Me despedi vexado da multidão e do espetáculo, o escritor apanha da incapacidade de suportar tumultos, o odor da maconha ali onipresente lhe oblitera os sentidos, produz uma cárie nas suas vias orais.



A lembrança do semáforo o marcou de forma mais contunda que os versos perfunctórios de Zé Ramalho “há brilho de facas/ onde o amor vier/ e ninguém tem o mapa/ da alma da mulher”, olhava e lá estava o semáforo transitando entre os matizes, era o verde o amarelo e agora até o azul, a lesão odonto-aérea macula a verdade das cores.



Perplexo, ele se desvencilha dos aromas e dos escombros sobrepostos da audição, caminha desafiando a massa humana que lhe obsta o passo: anda atordoado, como se estivesse à beira dum precipício que não lhe causasse dano, mas que temesse ceder a ele por vaidade ou compaixão. Vai-se embora e o semáforo, modelo de funcionário, continua executando a tarefa para o qual foi programado; verde passagem livre, amarelo atenção e vermelho seja o que a imprudência quiser.


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