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O Curioso Caso de Benjamin Button

O filme, cujo título adere a epígrafe, é dos mais tocantes e comoventes relatos sobre nascer, viver e morrer que eu tomei contato desde que tenho tido consciência de mim. Adaptado de um conto do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald (1866-1940), conta a história de Benjamin Button, um bebê que nasce velho, com todas as acrobacias necessárias à vida que um idoso tem de fazer para continuar a viver. Nasce velho e morre bebê.


Mera e absurda ficção, o grotesco do caso não se dá pela ocasião da fantasia de se nascer velho; antes, é um mero pano de fundo, espécie de cortina de fumaça para entreter e falar sobre o que realmente importa: o fato de sermos condenados a nascer, povoar esse vale de lágrimas (para usar de um clichê literário), travar contatos difíceis com o amor, pavorosos com a dor, docílimos com lugares, construir uma história bela ou horrenda, mas história, e depois ser obrigado a ceder à morte, último precipício desse penhasco abismal, chamado existência.


No filme, a regra é contrariada. Os primeiros lances sentimentais são de estranhamento: primeiro, do pai, que abandona Benjamin à própria sorte ao ver o teratológico ser que acabou de nascer; depois, vem a incompreensão de saber-se jovem num corpo decrépito, eivado de pecados e escaras, que a ciência e a geriatria preferem chamar de rugas e outros nomes mais sensíveis.


A mais pungente de todas as tragédias da vida é ter de se despedir das pessoas que amamos. Benjamin, que ao nascer velho, porém novo, encontra nas pessoas que perpassa sua vida uma espécie de relógio invertido: quando ele está fisicamente velho, as pessoas estão jovens e, quando ele rejuvenesce, todas as pessoas ou morrem ou envelhecem, que é também um modo de morrer, só que com mais tédio.


Mãe adotiva, pai, amigos, amantes, todos vão sucumbindo ao destino, são “pontuais na sepultura”, enquanto Benjamin vê estupefato que a morte não é só ingrata, mas perversa, sendo que sua única virtude é ser democrática, pois, sendo-se virtuoso ou vicioso, ela o acalanta com o mesmo cerimonial de tempos imemoriais.


Curioso observar que “Benjamin” vem do latim, ou de outra assim que a gente fala sem saber que fala, e significa “o caçula”, que alude ao “puro, ingênuo” --- desconheço se a intenção do escritor foi metafórica; não obstante, ele nasce com ciência e morre ignaro, o que remete a uma contraposição cristã e, mais ainda, religiosa, em que o dessentido da vida fica ainda mais vago e impalpável, não permitindo a nós sequer a possibilidade de contemplação, apenas de ficarmos bestificados em compreender para quê tanto tempo, para tão pouca vida.

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