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O Cão e o Mendigo

Andar pelas ruas do centro velho de São Paulo é uma experiência marcante; vê-se de tudo. Rua Bráulio Gomes, 7 de Abril, Av. São Luis, adjacências. Um observador desatento não percebe a vida correr, uma transeunte desatenta não percebe a bolsa escapulir de seu tiracolo pela habilidade brutal de um “trombadinha”, como são carinhosamente chamados os punguistas da cidade.



Reparei nos mendigos. Eles não andam mais desacompanhados. Estão sempre com um cachorro por perto e creio que convencem os animais a lhe serem fiéis à força de comida ou de coleira. A verdade é que é difícil concluir quem cuida de quem; se o cão do mendigo ou se o mendigo do cão.



É prosaica a cena todas as manhãs; em meio a um amontoado de papelões simulando colchões, latas de alumínio, sapatos velhos e todo o demais ornamento que faz um verdadeiro mendigo ser reconhecido em qualquer parte do mundo lá está o cão, às vezes sonolento pela jornada noturna, de quando em vez abraçado ao seu dono (?), e quando um pedestre desavisado se aproxima eis que o bom cachorrinho levanta as orelhas, espertos.



Os mendigos são exemplos de cidadãos previdentes. Desde quando uma série deles foi atacada e mortas nas madrugadas frias da cidade eles, diferente das autoridades, tomaram uma providência: ter um cão de guarda. Curioso seria saber como foi elaborado o plano; fizeram uma assembléia de mendigos para decidirem como se proteger já que não tem ninguém por eles? A ata dessa reunião se houver, tem um valor histórico igual ao papel assinado pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888.



Eles devem ter computado quanto custaria manter uma boca canina sempre disposta a ingerir nutrientes. Os aborrecimentos oriundos de uma mordida a um inocente, a indenização por danos morais, despesas médicas, contratação de advogado, etc.; mas mesmo para um mendigo a vida vale mais que o dinheiro, imaginem a chateação que deve ser o sujeito, após um dia exausto, sossegado embaixo da sua marquise predileta ser acordado no meio da noite a cacetadas ou machadadas?



Assim, por essa necessidade social e amor ao próprio couro, faz-se ver a mais bem sucedida união dos últimos tempos; unida no frio e no calor, na fartura e na escassez, que afinal deve ser-lhe mais íntima que a fartura, enfim, um matrimônio com laços inquebrantáveis.


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