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Novela IML


... Como se isto aqui fosse uma novela, vou a desnovelar o enredo que muita vez se mostra fraco, insosso como chuchu cozido no vapor sem odor, seja lá o que isso queira significar; eu não faço a menor idéia.



Desisti de acompanhar meus colegas ao IML.



“Ela não vê que toda já/ está sofrendo normalmente/ toda cidade anda esquecida/ da falsa vida/ da avenida onde ela/ desatinou...”



A gente já sofre normalmente, e baseado neste axioma, axioma, palavra bonita, cheia de pompa e merecimento, isso quase me autentica como escritor; ser verborragicamente criptográfico me dá mais segurança e prazer, escrever difícil é um vício saudável que como o cigarro dá prazer, mas também mata; axioma, baseado neste axioma de que já se sofre por normalidade, julguei ser extravagante e algo excêntrico ir ao reino do sofrimento, sofrimento já extinto, é verdade, mas latente, o IML.



Não quis ir. A primeira turma que lá foi me relatou espasmos, vômitos incontidos, fuga, náuseas, uma coletânea sulfúrea de pavor. Coletânea sulfúrea; hoje eu estou que estou.



Corpos estilhaçados, outros em carbono, outros faltantes os membros, uns nem guardavam a feição que noutrora os identificavam como homem; foram atropelados por carretas, tratores, um a lua passou por cima, esmigalhando-o. Concluí que poderia viver sem vir semelhante soma de tragédia; já li e vi muitas, prefiro-as a flutuar na minha mente, não queria dar corpo a elas, dando-lhe vida naqueles corpos invívidos. Essa acabei de inventar.



Uma menina, dentro dum ônibus, teve a visão atingida indelevelmente por um cão que se debatia com as vísceras à mostra; tinha sido atropelado. Eu, como essa moça, tenho a mente fraca para infortúnios, por mínimos que sejam, eu já arroto, já me despedaço, me fragmento mesmo. Daí a desistência da visita. Ainda que a alma humana tenha a curiosidade natural da desgraça (alheia) a minha é controlável, eu a aperto por entre as unhas, e ela obedece, feito um bicho que se adestra por força de pantomimas. Cace um dicionário, leitor preguiçoso. Sempre vale a pena a descoberta duma palavra nova, elas ajudam a emendar uma idéia inviável ou sem sentido. Essa aí, por exemplo, acabei de caçar, na selva infindável do nosso vernáculo. É sincero. Eu não sabia o que escrever depois de “por força de”.



Só compareça ao IML por motivo imperioso, tipo se estiver morto, sem etc; fora isto, esperneie. Se for apenas para atender um requisito acadêmico, faça como eu; despiste o rumo e vá ao cinema, assistir “Jogos Mortais”, ou o Massacre da Serra Elétrica parte MDCIXX. No futuro, quando a morte, semelhante ao ar puro, for extinta da terra, ninguém haverá de sentir-se nostálgico desse museu amedrontador, e se caso sentir, é porque fede e cede ao instinto funesto da morte. Sai para lá.





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