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Nero, a Leitora e o Mackenzie






Uma leitora me escreveu, irada, por conta do texto dos “Ovos de Ipanema”. Falou o diabo. Disse que não é “só a nossa sociedade que faz esses absurdos, as de antes faziam pior”, ela se identificou como aluna do curso de História da Usp. Ok. Concordo com ela. Nero, que eu saiba, nunca pensou em pespegar ovos em ninguém, mas tinha o saudável hábito de, na intenção de racionar os odiados cristãos, amarrá-los e untar com pez, (atual piche) seus corpos para em seguida atear fogo neles com o nobre fim de iluminar seu jardim de inverno. Seres humanos usados como archotes. Os grã-finos de Ipanema não chegam a tanto, concordo, mas também não são imperadores...


A matéria-prima do escritor é a miséria produzida em larga escala por atuais Neros menos psicopatas. Hoje mesmo vi uma matéria que, longe de ser prima, não era menos que irmã. Os recém-aprovados alunos da Faculdade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo pediam, coloridos como araras, dinheiro nas ruas Maria Antônia e Av. Higienópolis. Comovente. Tive de parar para ver. Uma senhora, elevada dentro de um Corsa sedan, foi encurralada por uma chusma de alunos; ato contínuo, ela não desesperou do assédio, antes, sorriu ilesa, a pensar “são meus netinhos, vou colaborar” e sacou da carteira uma nota de 20 reais. 20 reais. Ouviu-se um estrépito, como na comemoração de um gol. Em júbilo, os alunos deram passagem ao carro; ela sorria feliz.


Não bastaria mais que um raquítico menino de rua para inspirar em vez de sorrisos, terror na boa senhora, o que a obrigaria a fechar o vidro, a rezar um pai-nosso, como eu também faria em igual cena. Uma das coisas que mais me causa pavor é me flagrar fazendo aquilo que condeno.


Duas quadras adiante, outra cena curiosa: um estudante, a pele azulada não de tinta mas de estirpe, discutia freneticamente com um pedinte, maltrapilho até no hálito:


- Aí mano, c tá zuando meu trampo aqui meu.


- Pô chegado, é só hoje que nóis tamo aqui, daqui a pouco a gente vaza e cê vai ficar aí faturando, falou?


- Puta meu, cês aí, mó filhinho de papai, ficá mendigando na rua e atrasando o meu lado é foda, aí cês qué me fudê.


- Abraça! – regurgitou um terceiro.


Fui caminhando enternecido, quase beirando a alucinação. A leitora estudante da Usp tem razão, não é privilégio ímpar da nossa sociedade criar absurdos.




Escrito por Alex Menezes às 23h29


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