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Jogos e Crimes

... não vejo momento mais propício para cometer um delito de estirpe do que este que ora passa. O mundo olha para a China que olha para o mundo. A época olímpica enseja muitas falsas idéias, como aquela de que “tal país receberá a medalha”: quem a recebe juntamente com o louro é o atleta. O ato esportivo é uma realização muito mais pessoal do que coletiva ainda que o esporte praticado careça de mais de um membro.


Não enxergo melhor hora para delinqüir. Aconselho-o a ferir o rigor da lei que, dependendo do delinqüente e do que se delinqüir é verdade que ela nem é tão rigorosa assim. Todavia só participo intelectualmente do seu crime se ele for montanhoso, estrepitoso, que cause comoção; galinhas e demais penosas não valem a pena da pena. A consultoria criminal só lhe será dada caso intente aliviar a algibeira (que nome gostoso de se dizer, vá repita em silêncio al-gi-bei-ra...) sem fundo do Erário. Pode ser também um banco, crime naturalmente perdoável, com excessivos instrumentos de atenuantes, regra criada pelo mais elevado espírito samaritano e que tais.


Furtando, (se fores rápido) roubando, estelionatando, - crime contra a vida não vale – neste período que compreende a Olimpíada, terá o mal feitor a fortuna (!) de não ser muito molestado pela mídia que só tem olhos para os Jogos na Ásia. É mui provável, se é que conheço os fora-da-lei, que eles estejam engendrando alguma arte criminosa antes que se encerre o evento poli-esportivo; se lograrem êxito na tentativa, fará seguidores aqui e alhures, porque crimes e suas inovações é produto de fácil aceitação no mercado internacional.


Outro dia encontrei um amigo oscilando entre o semi-morto e o semi-vivo e detestei presenciar aquela lástima, embrulhada numa penúria:


- Ei amigo, como ousa estar ainda aí, praticamente vivo...


- É compadre, fiquei tentando bolar um plano prum crime perfeito, mas o resultado da tentativa foi essa cama, esse soro, essas anfetaminas...


Não raciocinou o meu amigo. Tivesse ele sido dotado com a glória da previdência, jamais ousaria praticar um crime em plena entressafra e recuo de mega-eventos. É necessário pulso e estilo para criminar. Por ora, enquanto o mundo extasia-se com os 42 bilhões que a China investiu para a Olimpíada, mor parte do planeta não se importa com os direitos civis lá violados, o autoritarismo do governo... mas que mal agradecido que sou eu, que fanfarrão, que bonachão sem prestígio! A CPU, o monitor, o teclado o mouse que agora uso para vivificar este texto foram feitos na boa China, que produz também maravilhas. Diante disto, fico quieto pelo sangue e pelo silêncio que os opositores de lá têm de colaborar. Tudo nesse mundo é uma troca.



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