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Gregos do Nosso Tempo

“Eu entendo o horror de matar meus filhos, mas meu coração é mais forte que minha razão” – Essas foram as palavras que Eurípedes pôs na boca da ignóbil feiticeira Medéia antes de ela matar seus filhos, por causa do pateta do Jasão.


Fiquei pensando nisso, leitor, quando abri o jornal e vi que duas crianças indefesas foram trucidadas pela mãe com uma serra elétrica, dessas de cortar ferros. O marido dela, a negação do Jasão da lenda, é serralheiro, profissão humilde, mas necessária. Não dá uma dor latente? Dessas que areiam as dunas do nosso interior?



Os “tragediógrafos” gregos por mais livres e turbinados que tivessem seus pensamentos, não imaginaram coisa tão cruel assim. Sei lá. Sófocles fez Édipo expiar seu “pecado” furando os olhos com as presilhas da sua manta. Tântalo, por doar segredos aos homens, foi condenado a ter fome e sede eternamente; foi amarrado em pé num rio, com a água até o queixo que descia sempre que ele se inclinava para beber: não bastava o castigo sem o tormento. Perseu fez Atlas carregar o mundo nas costas, por lhe negar, veja isso, hospitalidade. Hefesto, por interferir numa briga entre Zeus e Hera, foi jogado do alto do Olimpo e ficou coxo para sempre. Em briga de marido e mulher, ninguém deve meter a perna. O destino de Hércules todos sabem; após ter assassinado toda a família, teve, como expiação, de executar os tais 12 trabalhos, depois foi morto pela esposa ciumenta com uma camisa envenenada. Enfim, é uma confusão imensa a dessa família grega. Maior que a da minha e da tua, acho eu, por ingênuo e otimista.



Perceba, todavia, que há em todas essas sandices “Made in Greece” uma poesia qualquer, um lance obscuro que torna poética a tragédia, tolerável, digerível, até bonita. Mas no caso da nossa desventurosa mãe que serrou seus filhos inermes, há apenas sequidão; a própria lagrima que verti quando tive notícia da notícia tinha algo de sólido e pontiagudo, de aspereza mesmo. Uma lágrima feita da não vontade de chorar. Imagine espinhos brotando da pupila. É como isso.



O pai das crianças ficou em estado de choque por vários dias, leitor. Eu, se o pai fosse, ficaria sem dia, por vários choques. Que tumulto é a vida dos afligidos por tão amarga desdita na vida, leitor! “quando nasci/ um anjo torto me disse”, etc – desculpe a ruptura, mas precisava de um gole de poesia para suportar o tema e acabar esta crônica. Não quero nominar personagens, dar local, data, nem nada deste trágico acontecido, porque se este texto sobreviver por duas gerações, quero que os leitores do futuro imagem que eu sou uma versão barata e malsucedida dos dramaturgos gregos.


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