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Estamira

Por culpa do senhor Contardo Caligaris, fui ver um filme-documentário chamado "Estamira". Ignorante do conteúdo do filme, achei esse nome, Estamira, algo extravagante. Seria um país perdido da África? Uma variação da gripe aviária? Muito mais do que isso.

Estamira é uma "coisa". Desses fenômenos que chamamos inclassificáveis. É uma mulher de 63 anos, o corpo lanhado pelas tempestades da vida, o rosto vincado de sulcos que não se sabe se foram confeccionados pelas rugas ou pelos sofrimentos. É líder duma comunidade de idosos num aterro Sanitário do Rio de Janeiro, ou "Rio de Ladeiras", como prefere o gênio de Holanda.


Estamira divide e disputa a vasta riqueza do lixão carioca com urubus pretos e brancos. Sim, leitores, urubus brancos. Não podem ser gaivotas as aves brancas vistas no filme, a rapinar os dejetos da civilização.


Dona Estamira sofre dos males da alma; talvez seja psicótica, esquizofrênica, mas limitá-la ou rotulá-la com o simples nome de uma doença não ajuda a explicá-la. Seus arroubos de lucidez são chocantes: segue algumas frases de dona Estamira:


"Aqui no lixão só chega resto e descuido" - o descuido, supus, era um pote de palmito enlameado que ela trazia na mão.

"Tudo é abstrato."

"Registrador de pensamento" - possivelmente se referindo ao cérebro.

"Formato par (mulher), formato ímpar (homem)" - eis uma classificação óbvia, e por

ser óbvia, ficou todo esse tempo inédita.

"Um deus falsário."

"O 'trocadilo'" - repetia ela, num belo neologismo, era o deus-falsário, o homem

mal, etc.

"Não sou perversa, mas sou ruim."

"Nenhum cientista descobriu até hoje onde é o além dos aléns."


Viram? Lucidez compacta, a dessa dona Estamira. Estes poucos fragmentos foi tudo o que consegui captar de memória e com um bloco de anotação no breu da sala de cinema. As letras e a memória estão trêmulas; apenas os cegos e os poetas podem ver na escuridão.

O que é a Razão e o que é a Loucura? O que é mais abundante no nosso mundo? No célebre conto-novela "O Alienista", o Dr. Simão Bacamarte, estudioso dos males da cabeça, enuncia ao seu amigo Crispim Soares:

- ...A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da Razão; começo a suspeitar que é um continente.


Estamira é dona de uma loucura criativa, seu processo discursivo é chocante porque realista; usa conceitos que o filósofo alemão Nite (não ouso escrever seu nome com a grafia correta, aquele reino de consoantes!) escreveu no século XlX, segundo constatou o filósofo Luiz Fungati, presente no bate-papo realizado após o filme, onde também estava o diretor do filme, Marcos Prado. Perguntei ao Contardo Caligaris se a Loucura não era mais criativa e menos maléfica que a "Razão", que faz, por exemplo, explodir bombas em Israel, que há milhares de anos é hostilizado naquele oriente hostil. A linha que divisa a genialidade da loucura é tênue. Extensa é a lista dos gênios "loucos". Van Gogh, Wittgenstein etc.


Mas o grande psicanalista-escritor me dissuadiu dessa ideia romântica e ingênua da Loucura como fonte criativa, pois ela traz mais sofrimentos que alegrias. Ninguém sabe o que passa dona Estamira. Ninguém sabe o que se passa na mente perturbada de uma pessoa doente.


Não obstante, os lapsos lúcidos de dona Estamira me fizeram crer que lá no fundo do seu espírito perturbado, ela ria da cara de todos que a achavam louca, pois tinha a plena consciência do seu estado delirante. Mas quem delira? Ela ou nós que nos julgamos normais? Volto ao Alienista. O Dr. Bacamarte, sem ter como provar o que era Razão e o que era Loucura, trancou-se no seu hospício, para regozijo e sossego dos moradores da Vila de Itaguaí, que acabaram por dizer:

- Quem nos garante então que, na verdade, o alienado não seja o alienista?


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