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Das Propagandas e dos Colibris




Vou me especializar em ninharias. Serei o maior especialista do mundo em decifrar os comerciais de TV. O comercial da Samsung é um bom objeto de estudo. Ensina e exorta a camaradagem e a harmonia familiar. Eu tenho cara de celular? Eu tenho cara de geladeira? Eu tenho cara máquina de lavar? Eu tenho cara de otário? Não responda.



O comercial da Fiat é interessante. Mostra as hiperbólicas reações e feições das pessoas no escritório que vêem uma planta num vaso como se fosse um ET; um arrebol como se fosse a mãe nascendo antes deles; e um colibri. Não vou me especializar em porcarias de comerciais nenhuns; o que eu quero mesmo é falar do beija-flor.



Parei aquilo que chamo de carro entre a Panamá e a Venezuela, não o país Venezuela porque não estou bestando de ir parar lá; falo da rua chique de Sampa. Era quase fim de tarde. Entre o redemoinho dos carros, vi um beija-flor atrevido, degustando o néctar e a cidade.



É uma bela cena. A árvore onde a micro-ave fazia sua refeição estava, apesar do inverno, florida. E ele, naquele restaurante self-service vertical, sugava uma flor após outra; de baixo para cima; grudava no ar, pairava e despegava dele, para logo em seguida subir novamente, como se tivessem degraus no vácuo.



Não sou ornitólogo, mas desconfio que, salvo o homem, não exista predador natural para essas criaturinhas feitas com pedaços de eletricidade, tal é a sua velocidade ultra-sônica e seu senso espacial que o coloca aqui ali aqui de novo ali rapidinho de volta cá indo à frente ré acolá breca à direita sobe à esquerda desce em espiral mergulha de lado volta de costas e, ufa!, descreve uma salada geométrica, caso lhe fosse instalada uma linha abstrata.



Comercias de TV embrutecem a nossa retina; aconselho como colírio uma dose de colibri pela manhã, mas de forma moderada para não viciar; aliás, “moderação” é a maior enganação da história da mídia mundial: Skol, Brahma, Antarctica: beba com moderação. Faz-me rir, senhores publicitários. Propaganda descente é aquela feita pela torcida do Internacional de Porto Alegre no jogo contra o Grêmio, dizia a faixa: “SENHOR JUIZ, ROUBE COM MODERAÇÃO”. Meu lema para as próximas eleições será: “Senhor senador, roube sim, mas com moderação”.




Escrito por Alex Menezes às 22h24


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