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Da Grandeza e dos Leitores





Realmente causa muita impressão caminhar com os olhos pelos acontecimentos do mundo e ficar indiferente, quando menos impassível diante do sopro feroz deste ciclone chamado “caráter humano”. Como vivenciamos o baixo auge da era da informação, confesso ser muitamente difícil sacar um tema que desperte sua atenção, que mereça as duas calorias que você gasta enquanto lê isto aqui. Conto com a ajuda de leitores delicados, que sugerem temas; não é raro que eu receba um pedido para falar do aniversário de 15 anos da filha; das bodas de papel de um senador da Geórgia, e coisas afins. Mas recebo também pedido sério. Uma leitora leu nalgum lugar cuja fonte me escapa relatando que um americano chacinou um colega de quarto por causa de simples e mero chulé.


Talvez seja o primeiro caso na literatura criminal de um chulé causar a asfixia permanente, vulgarmente conhecida como morte, em quem não suporta semelhante odor. Você que me conhece sabe que absolvo o assassino. É o que posso fazer. Depois da senhora nossa mãe, não conheço nada mais sagrado do que as narinas e, principal, o que entra nelas. Um chulé bem tratado, cuidado com carinho, é matéria não só de morte, mas também de divórcio e demissão, que são também formas de morrer, só que interinamente. Eu mesmo já vi um urubu pedir arreglo diante do pé de um colega de pensão, que o diabo o tenha. Isso equivale a querer mal ao diabo. E vai que o diabo seja desses camaradas que guardam rancor e estarei frito, caso a fatura para morar nos céus esteja além do meu alcance de quitar. Se for o inferno de Dante há ao menos alguma poesia, e ainda podemos prosear com Virgílio; se for o dos católicos a brasa daqui é gelo; no dos evangélicos queima sete vezes mais; o jeito é ser obediente, se não quiser arriscar a pele.


Estava no caráter humano. Veja o meu, por exemplo, que uso a tragédia alheia para fazer gracejos infames e faturar algum riso, ainda que seja de canto de boca. Por si só isso já um passaporte para os domínios inferiores, ou no mínimo um visto de entrada. O caráter se torna ainda mais bizarro e suscetível a uma estada na fornalha eterna quando flutuo de um fato que, apesar de trágico, tem lá sua tinta de riso pelo agente causador do óbito, para um que não tem graça nenhuma. Numa cidade do Piauí uma van de lotação foi assaltada por cinco elementos. O “elementos” é para dar um ar policialesco à narrativa. Foram levados para um canavial. Não bastou o assalto. O requinte foi que, além dos pertences de praxe, as vítimas tiveram de tirar as roupas. Naturalmente, se a ignomínia parasse por aí, não merecia minha dedicação, porque casos assim são parte da literatura cotidiana; não senhora, os meliantes mandaram os passageiros, ainda nus, formarem uma espécie de tapete humano (uma criança de 5 anos inclusa) e humanamente passou com o carro por sobre esse engenhoso gênero de asfalto vivo; mutilando um mulher aqui, esmagando um dente acolá, descaracterizando o rosto indefeso da criança dali; tudo para deleite do bandido que comandava a ação, e que a fazia com louvável convicção, fé ou descrença no castigo do Padre Eterno; fez e a esta hora deve estar a dormir, ou fazendo novena em favor de um ente enfermo; quiçá uma refeição, porque humanitas precisa comer.


Antes uma temporada no inferno. Queimar eternamente é melhor negócio que conviver com fatos tais. Aqui, disfarçados de gente, algumas pessoas comentem atos de bestas e pior. Blaise Pascal insistia que o homem não é nem é anjo nem besta, mas fica besta quando pensa que é anjo. Durma-se com uma arruaça dessas. O homem é essencialmente besta, mesmo quando se disfarça de anjo, nalguma ação ou pensamento. Outro leitor arengou comigo porque escrevi que o homem era um projeto malsucedido do Criador. Preciso fazer uma emenda nisto: tudo criado pelo Criador é prova de sua exuberância e perfeição; o exemplo mais gritante é o anel com que ele presenteou Saturno. Mas o homem é o trágico necessário para mostrar que o talento Dele obedece aos extremos; do anel do planeta, ao sujeito que passa com um carro por sobre pessoas nuas. Eu não tenho esperanças.




Escrito por Alex Menezes às 23h17


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