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Chico e a Tarifa

Chico Buarque de Holanda, sete anos depois, volta aos palcos.


Ele está, ao lado de Van Gogh, Alexandre Magno, Wittgeinstein e Machado de Assis, no panteão sagrado dos meus heróis particulares. Mas…


"Meu caro amigo eu quis até telefonar/mas a tarifa não tem graça".


A tarifa para ver o show dele, não tem graça. Vejo muitas pessoas que queriam ver o show, mas o preço é proibitivo.


Chico tem um histórico de luta pelas causas sociais, fez músicas de protesto na barra pesada que foi a censura, recebia bilhetes amedrontadores dos militares; dalguma forma ajudou no processo de redemocratização do país; é do bem o nosso Chico. Afora ideologias políticas, ele é pelo Brasil; isso não se discute.


Creio que o aluguel da casa de espetáculo, logística de venda de ingressos, pagamento da banda e uma infinidade de outras despesas faz o preço do ingresso salgar, mas cobrar um valor mínimo de 80 reais, fora os apêndices, para vê-lo cantar é um pouco demais para um país como o nosso em que muitas pessoas mal têm acesso a um prato de comida e uma coleção de outras et ceteras.


Sem contar o escândalo da reduzidíssima cota de ingressos para estudantes, empresas compram ingressos e gente que nunca ouviu uma música dele vai estar lá "apenas para ser vista" porque o show será um "acontecimento"; as "celebridades" do momento vão reinar absolutas, irão lá como irão os eleitores das próximas eleições; sem fazer a menor idéia do que fazer com o voto, porque brasileiro vota como transpira.


Quero isentá-lo de culpa, talvez ele nem saiba o preço do ingresso, mas poderia ser mais sensível e cuidadoso quanto à sua imagem, pois apenas uma parcela abastada da população poderá vê-lo cantar e ouço em toda parte comentários como: "Ele é da elite!".

Particularmente, não sou contra os ricos; quem (salvo o ateniense Diógenes que fazia de uma simples cuba a sua casa e seu infinito) não gostaria de ser rico? Hipocrisia é dizer o contrário e culpar exclusivamente os ricos pelas mazelas do país; compartilho do que o próprio Chico escreveu em "Marcha para um dia de sol":

Eu quero ver um dia

Numa só canção

O pobre e rico

Andando mão e mão

Que nada falte

Que nada sobre

O pão do rico

E o pão do pobre


Vai ser uma pena (aliás, uma ave inteira!) saber que muitos dos seus fãs serão privados de ver um dos maiores compositores do mundo (dos ainda vivos, apenas Bob Dylan se lhe compara, ao longe) em ação, cantando suas músicas com aquela interpretação tão peculiar, tão sua e tão ímpar. Quem sabe, numa bela utopia, quando ele voltar aos palcos daqui sete anos, já não sejamos um país menos desigual e tanto o pobre quanto o rico o possam ver cantar?




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