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Carnaval, Desengano


Diogo Mainardi pediu o cancelamento do carnaval como forma de protesto pela morte do menino arrastado por selvagens pelas ruas do Rio de Janeiro. Custa-me discernir se ele fez pilhéria ou se falou a sério. Deve ter brincado. Como brincam os políticos. Como brincam os criminosos. Como brincam os sambistas nas passarelas. O mundo é um grande palco para brincadeiras de mau gosto.



Imaginem o carnaval cancelado. O choro e ranger de dentes de passistas, mestres-salas, o rei momo órfão de súditos, pierrôs e colombinas melancólicas, e toda a poderosa companhia que financia o espetáculo, entre eles, o narcotráfico.



Nos treinos para o Grande Prêmio de F1 de Ímola em 1994, o austríaco Roland Ratzenberger morreu esmagado dentro de seu carro; na largada de domingo, 1º de maio, um acidente matou um espectador nas arquibancadas, e na sexta volta, a traiçoeira curva Tamburello nos levou Ayrton Senna. Já na sexta, houve clamores para que a corrida fosse suspensa. Mas o show, como a tragédia e a vida, não pode parar.



A festa e a catarse provocada pelo carnaval coloca em último plano quaisquer manifestações acerca da razão. Nada importa: pessoas se deprimem se por algum motivo não puderem participar do evento, a hipnose atinge picos estelares com os desfiles das escolas de samba, o noticiário é monotemático, não há crimes, nem votações no Congresso, tudo é secundário, misérias e flagelos são alçados à indigência.



O carnaval de outrora, não existe mais, mesmo porque o “outrora” é extinto. Tudo é business, e exploração, é uma saturação de mais do mesmo, todos os anos. Após os três dias de festas, vem o saldo: os mortos nas estradas, os assassinatos, as doenças contraídas, os altos índices de aborto no mês de março.



O que nos anos 20, 30 e vá lá, 40 e 50, era uma festa de caráter popular, mesclado de graça e inocência se transformou numa máquina de criar fantoches, mulheres despidas como mercadorias de foliões estrangeiros, a rota do turismo sexual. Um profundo estudo sociológico que não farei por inépcia, mostraria a metamorfose de uma festa legítima num produto midiático, artificial e manipulador.


Olavo Bilac, poeta e homem da época do entrudo, escreveu: “São uma gente à parte, quase uma raça distinta das outras. Os que amam o carnaval, como amam todas as outras festas, não são dignos do nome carnavalescos. O carnavalesco é um homem que nasceu para o carnaval, que vive para o carnaval, que conta os anos de vida pelos carnavais que tem atravessado e que, na hora da morte, só tem uma tristeza: a de sair da vida sem gozar os carnavais incontáveis que vão se suceder no Rio de Janeiro pelos séculos sem fim”. Aquilo sim é que devia ser carnaval, o que ocorre hoje, é comédia, daquelas de mausíssimo gosto.




Escrito por Alex Menezes às 13h14


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