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A Sesta, Van Gogh

O jornalista Paulo Francis insistia em dizer que Vincent (1853-1890) não sabia desenhar; acertou. Vincent acoplava na tela o que só a imaginação é capaz de enxergar, o pincel e os tubos de tinta eram o estorvo da sua arte. Nenhum pintor me é mais caro do que Vincent, apreciar suas telas me transporta para um mundo onde só há uma lei, a de ser feliz.


Este quadro, intitulado “A Sesta“, data de 1890 e é dos últimos dos cerca de 820 pintados pelo gênio, já totalmente no auge de sua perícia no uso da luz do mediterrâneo e dos sentidos e das amarguras de uma vida pontuada por misérias, dores e aflições.


Os dois camponeses recostados ao montículo de feno expressam, sem o tradicional uso da fisionomia, toda a narrativa e psicologia que expande o cenário, encontrando focos de um lirismo tão marcadamente melancólico que dá vontade de deitar ao lado do casal, que transborda de inocência, no merecido descanso da labuta, lutando contra um sol (única fonte de luz possível) que irradia para todos os lados, como se a luz brotasse do chão, pois não há zonas de sombras no quadro.


Apesar da delicadeza paisagística, este quadro coloca o homem na terra, lugar de onde veio e para onde irá; todas as coisas, botas, estrovenga, homem e mulher e animais estão grudados ao solo que absorve quase toda tela, nada há suspenso; exceto uma nesga de céu que se projeta no fundo, distante, não sendo personagem, mas emblema da distância entre o divino e o terreno.


Vincent, homem profundamente religioso e místico, externava tais sentimentos às telas, deixando em cada delas uma mensagem ou de alivio ou de agonia, de prazer e sedução, de indignação e esperança, executando e cumprindo, no entanto, a tarefa de dizer a quem vislumbra seus quadros: “Olhem, saiam desse mundo, o meu é irreal, mas sem opressão”

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