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A Pomada Corporativa

Aparentemente não há nada mais elucidativo do ponto de vista egoístico do que saber que alguém faz uso do público com objetivos privados e o melhor de tudo, nunca é descoberto e quando o é faz-se de rogado; diz que não é bem assim, e se for filmado, fotografado, flagrado no coito impudico com o farto e elástico dinheiro público, diz que não foi ele. Altamente compreensivo é negar uma evidência negativa. Eu por meu turno, reclamo do talento daquele que dá a desculpa. Tinha um amigo que dizia que conseguia uma desculpa aceitável caso fosse pego pela esposa só de meia, na cama, com outra mulher.


O talento e a persuasão do meu amigo não se estendeu aos sacripantas pilhados na CPI do Cartão Corporativo. É admirável a infinda lista de produtos comprados com os tais cartões; é alpiste, anzol, cadarço (em rolo), casco de tartaruga, areia do Saara cervejas, pomadas para aumentar o bumbum, como? Pomada para quê? Para aumentar a bunda. Foi isto que se descobriu. A desculpa? Um engenho. Uma arte. Um silogismo. Um monumento ao patético.


O notável funcionário público deu a seguinte justificativa para a despesa meio suspeita. À época do Programa de Desarmamento, quem entregasse uma arma, recebia 300 reais. Não sendo possível o pagamento em dinheiro, como previa a portaria, ele fez o pagamento à mulher que entregou a arma com a compra da pomada anti-gravidade glútea. Imaginem a cena. Só altos funcionários do governo têm direito aos tais cartões. Cinematizo ele a entrar numa clínica acompanhado da mulher, os agentes federais a lhe fazer a segurança:


- Uma pomada aumentadora de bunda, por favor.


- Como é o pagamento, senhor?


- Cartão. Corporativo.


- Senhor, desculpe a impertinência, mas esses cartões não são para pagar outros tipos de despesas?


- Sim, mas estou fazendo uma permuta.


- Permuta? Mas...


- Sem mas. A pomada sem favor.


Sai da loja o homem, lépido, certo de que cumpriu seu dever cívico e profissional. Entrega a mulher em casa e retorna à repartição, anseia por um caso mais gravoso, senta à mesa, calcula o benefício feito à mulher e se dá conta de que o telefone que ela lhe dera é na verdade da corregedoria do Senado: tudo fora gravado, a compra, os amassos, menos a marca do batom, que ele extinguiu extinguindo a camisa, comprando outra da Hugo Boss, paga com cartão corporativo.





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