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A Pipoca e o Milagre Cubano

São 21 horas com 59 minutos; acabei de fazer pipocas; não só fazê-las como jantá-las. O que une essa experiência com Cuba e a renúncia de Fidel ainda me é um mistério; mas também de mistérios vive o homem. Despejei na panela meríssimos gramas do milho que protagoniza a mais intrigante metamorfose culinária que se conhece; qualquer dia desses contarei os milhos e depois as pipocas estouradas, porque sempre parece que nasce mais pipoca do que o milho que invisto na sua produção.


Cuba tem cerca de 11 milhões de habitantes. Menos do que a Grande São Paulo. Pib de 44 bilhões de dólares. Menor que o da Bahia. Indicadores sociais impossíveis de serem auferidos com isenção, mas diz-se que naquela restinga 85% das pessoas têm casa própria. Cuba em termos econômicos não representa nem um traço na atividade comercial do mundo. Não fosse Fidel, Che Guevara e a Revolução, ela seria tão significativa quanto, deixa eu pensar em algo equivalentemente insignificante... não consigo; pense você em algo e fica sendo isto.


Apesar dessa insignificância que você magistralmente mentalizou, até o Der Spiegel, o super jornal alemão, e provavelmente o Pravda, se ainda existir, deu na primeira página a renúncia ao comando da ilha por seu líder, Fidel. Era tudo que o longevo ditador queria; mídia, relevância, holofote ao seu ato. Muitas coisas se explicam no mundo pelas coisas mais tacanhas. Veja o caso do Rio de Janeiro que reuniu semana passada 700 mil náufragos da existência na praia de Copacabana para um “espetáculo” com uma cantora de nome alguma coisa Leitte, assim mesmo com dois tês. Igual a Cuba. Cuba não é nada. É um país onde não há liberdade de expressão, a miséria viceja, mas o gosto do mundo é pelo mito e pela celebridade. A lenda cubana é maior que a nação cubana. Fidel, no papel de maior legenda política viva do mundo é quem catalisa a comoção, ainda que negativa, transformada em análises de economistas, filósofos, sociólogos, curiosos (onde me enquadro) mas para quê? Para nada.


O Kosovo arde reclamando independência não aceita por russos e anti-russos; a Birmânia é o caos, o Paquistão, potência nuclear, tremula numa eleição perigosa, e o Sudão?; a situação do Sudão é atroz e uma vergonha para a comunidade internacional; as Farcs mantém 800 pessoas seqüestradas dentro de um Estado democrático, o Iraque se desintegra com atentados diários; mas nada é mais charmoso aos olhos dos críticos do que prognosticar sobre o futuro da ilhota de Fidel. Até as eleições norte-americanas foram brevemente eclipsadas pela pirotecnia do ditador cubano.


Eu só respeitaria Cuba se ela tivesse sido o pavio que detonaria a III Guerra Mundial no famoso episódio da Crise dos Mísseis em outubro de 1962. Como foi só palha sem fogo, ignoro esse país insular como ignoro a bem-vinda úlcera no estômago alheio.


Cuba é como o milho da minha pipoca. Eu olho com desconfiança na sua pouca quantidade, mas o volume que ele esconde é um estrondo. Desconheço os mecanismos termo-botânicos que resultam no milagre da pipoca e sua espantosa expansão; o milagre do sucesso de Cuba não carece de explicação porque se auto-explica com a tiragem semanal da revista Caras. Flashes espocarão sob a face do moribundo Fidel até que morra de moléstia ou de tédio pela lacuna que o separará dos longos discursos ou de fuzilar pobres diabos.





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