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A Pele que Habito

A Pele que Habito está para Pedro Almodóvar assim como Match Point está para Wood Allen, não que ambas as fitas sejam as melhores dos dois diretores, mas pelo que ambos confeccionaram de transgressor em cada filme, vez que a supremacia estética está amparada na violência e no absurdo, dois dos traços mais intensos da condição humana.


O filme de Almodóvar dialoga com outras de suas obras-primas, mais claramente com Ata-me, de 1990; aquela sensação de aprisionamento mortal, em que um vigoroso e latiníssimo Antonio Banderas, dessa vez, dá lugar a um sóbrio e algo complexo médico excêntrico no filme atual.


Há muito dos filmes norte-americanos dos anos 30/40 em A Pele; e, óbvio, da literatura de Robert Louis Stevenson, em que o médico e o monstro parecem ser a mesma pessoa, agem como a mesma pessoa, mas não são a mesma pessoa, apesar de, em tese, habitarem o mesmo corpo.


O renomado cirurgião plástico Robert Ledgard tem a vida fissurada por eventos drásticos desde o ventre, e tais sintomas carregam o doutor a desenvolver uma personalidade vingativa e cruel, a ponto de burlar princípios éticos da profissão e dos direitos personalíssimos que ele não respeita por não mais se adequar à normalidade do trágico. Torna-se uma vítima maligna e amplifica nos outros o mal que não pôde suportar.


O desenvolvimento da doença que na verdade habita o médico contagia todos que convivem com ele: a mãe, a filha, o irmão e todos que orbitam seu brilhantismo. Ele irradia desequilíbrios com sua presença soturna.


O surpreendente, o inimaginável passa a se desnovelar a partir da técnica dos flash backs que o diretor manipula com uma habilidade magistral, a ponto de levar o espectador a desconfiar de tudo, menos do óbvio.


O desfecho esperado revela a intensidade com que o filme passa a cada vez mais se parecer com a realidade da fatalidade da vida. Robert se desvincula da realidade intentando recriar um mundo particular, bem ao gosto dos mais clássicos sádicos do cinema e da vida real.


No final do filme, o anticlímax atinge o poço: a revelação do terrível destino de Vicente não poderia ter um final mais kafkiano, abrupto, para que o espectador sentisse ele mesmo o punhal penetrando na carne. A arte de Almodóvar é fazer a audiência escolher onde vai abrigar a lâmina, se no peito ou na consciência.


É o filme do ano.

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