• ABM

A Nova Sociedade


Após sofrer uma colossal hecatombe a terra se transformou num lugar desprovido de insuficiências. Variação climática nula, excessos de otimismos no ar. A morte como elemento de combustão fora banida por essa nova sociedade. Um astro ofuscante jazia inerte no céu e era ativado apenas à noite. Não havia comoções, os sistemas de saneamento eram perigosamente eficientes, educação na linha impossível da excelência. A saúde era gerida dentro de uma engrenagem não mecânica, mas orgânica e a ociosidade dos leitos era sanada com aulas de violino, dada por médicos com formação duopolifônica. Nas vias terrestres, o transporte público era municiado por uma tecnologia inovadora que consistia no esmero com que eram confeccionadas as solas dos sapatos: não havia pressa nem fronteiras que inibissem a necessidade de se deslocar. A produção e coleta de lixo, a geração uniforme e individual de energia eram segredos que cada habitante mantinham secretos, julgando cada um conhecer o método mais original.


Os produtos fabricados naquele lugar eram de uma durabilidade hoje considerada corrosiva, não quebravam, não davam manutenção: eram fabricados com o objetivo ímpar de funcionar não visando dividendos nem impostos. A carga de trabalho era fracionada os trabalhadores não tinham patrões e o retorno pecuniário pela jornada era pago com reconhecimento social. Nesta autocracia às avessas, não havia líderes nem cargos eletivos, câmaras políticas eram o que são os museus atuais, com bonecos de argila representando deputados e senadores, ofícios arcaicos e por isso extintos. A produção artística, de qualquer espécie, era limitada a uma por cidadão, medida que visava a inibição da vaidade, fenômeno considerado o pivô da degradação comum anterior. Por convenção unânime, era proibida qualquer aglomeração pública superior a três indivíduos tendo como pena aos infratores da norma o degredo do silêncio e nada mais. Corroída, a burocracia era o crime de maior potencial ofensivo cuja pena capital era a incapacidade automática de procriação pelo infrator. Gerenciada por códigos abertos, o contingente de cada cidade tinha de respeitar um limite de citadinos posto que, superada a tolerância de 46% deles, o excedente era direcionado a uma colônia de férias forçadas, cuja única obrigação era fornecer às cidades não-infratoras métodos de socialização mais eficientes que os já usados. Alguns dos infratores passavam décadas no suplício do ócio, produzindo boletins diários explicando a inviabilidade de tal tarefa; e assim os dias corriam, a rotina extenuante, sol abundante à beira de um mar gelatinoso, lautos jantares, sexo à larga, atividade física controlada por fisioterapeutas, informação ao alcance dos dedos, e o mais do tempo consumido ao bel prazer sem prejuízo da liberdade. Eram altos os índices de depressão tratados com doses cavalares apenas de persuasão; cometeram o crime, que cumprissem a pena.


A harmonia vicejava entre os cidadãos sem causar invejas recíprocas; os bens de consumo duráveis tinham regras para serem adquiridos, quais sejam, a de serem consumidos após uma reflexão feita na frente dum espelho-lente acompanhada, em silêncio, pelos habitantes cujas expressões faciais orientavam a decisão da compra que era feita em troco de um poema escrito sem métrica, rima ou dor. Naquela sociedade organizada, crimes violentos e de lesa-humanidade eram tratados com indiferença; quando um criminoso cometia um crime não se lhe era dada qualquer repreensão de pena privativa de liberdade; antes, eles eram exortados a se manterem livres e uma comissão lhe ofertava mais possibilidades de cometer crimes; sem coerção e exposição ostensiva na mídia, os criminosos eram assaltados por uma profunda melancolia que os faziam presos nas sarjetas asseadas e aquecidas das cidades.




A monotonia passou a ser a vilã pública nº 1 da sociedade; mentes brilhantes simplesmente passaram a produzir mais sabedoria em protesto à paisagem social suntuosamente coesa e harmônica deixando os menos sábios preocupados com uma possível revolta perpetrada pelos mais suscetíveis às doenças geradas nos gabinetes mentais mais soberbos. Conduzidos pelo temor da degradação geral, os habitantes infringiram um dos princípios sagrados que era o da reunião tri-indivíduos e a inédita assembléia logrou justa a permissão para que fossem afrouxados os mandamentos precípuos da nova ordem e sancionou a pena de restrição de liberdade a qualquer indivíduo que simplesmente atravessasse a rua fora da faixa; o sucesso foi imediato. Em questão de meses as casas dos que flagravam os infratores estavam abarrotadas com estes, que berravam felizes dentro dos quartos de dormir impedidos de ver o movimento da rua, ver TV, ou criar jurisprudência. Gestada dentro de cada lar, a desarmonia familiar florescia a grandes ventos, maridos não retornavam a casa, mulheres se envolviam com seus prisioneiros, filhos eram gerados à moda do século XX. O caos voltara a imperar.


Imprestáveis, os poemas e concertos usados para pagamentos de bens de consumo foram rapidamente sucedidos por unidades monetárias de valor cuja matéria-prima era fragmentos de ossos humanos que depois de cedidos pelo doador, eram numerados e avaliados, conforme a densidade medida pela osseometria. Um bom osso valia um grama de ouro carbonizado. Com a cobiça restaurada, ninguém mais podia dormir sem a expectativa de uma incisão não-autorizada e o pânico fez a recém-criada indústria têxtil (até ali todos andavam nus, o que explica a baixa taxa de natalidade) que criava materiais à prova de bisturis, contrabandeados da China. Fez-se necessária uma urgente eleição direta, sem colegiado, para outorgar poderes supremos a apenas um ser humano; campanha vencida a troco de muita mutilação corpórea, o presidente passou a criar vários institutos, comissões, ministérios, subscrições, autarquias, agências reguladoras: estava restaurado o monstro da burocracia.


Em duas décadas tudo retornou à miséria que havia diluído o mundo a meros sobreviventes esporádicos nos cinco continentes que levaram milênios para se encontrarem. Quarenta anos depois todos os homens estavam sujeitos aos mais rígidos códigos de conduta ainda mais severos que os anteriores; em meses, já se confundia Netuno com Aquamen; sintoma claro de debilidade social. A proscrição a cultos e o nascimento de uma religião oficial organizada foi logo promulgada pelo novo governo. Controlada, a população saboreava as restrições com festas anuais, criava feriados e se entorpecia com o confinamento moral. A degeneração veio para salvar a sociedade, inapta e incapaz de se adaptar à coesão.




Escrito por Alex Menezes às 20h21


Posts recentes

Ver tudo